quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ditadura da desinformação

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No mês de julho o sociólogo espanhol Manuel Castells veio ao Brasil para um Seminário sobre Educação, promovido pela FGV, e trouxe elementos importantes para pensar sobre nosso momento histórico. Castells foi assertivo ao afirmar que vivemos sob uma ditadura de novo tipo, um tempo de ditadura da desinformação. Nela, as plataformas digitais, que aparentemente seriam garantidoras de liberdade, são justamente o suporte material de nossa falta dela.
Olhando um pouco para o passado, conferimos que no século XIX os jornais, os meios de informação por excelência, tinham um caráter não só informativo, mas formativo. Era um tempo em que era escasso o mercado editorial, pouco haviam livros; ficando com os impressos periódicos o papel de instruir e informar. Marx, por exemplo, ganhou a vida fazendo esse trabalho. Longos textos dele publicados no Daily Tribune de New York viraram livros inteiros tempos depois.
Já o século XX foi o século dos tradicionais jornais, gazetas e fanzines. Durante esse tempo eles desempenharam o papel de informar os leitores. O músico Jorge Bem Jor sintetizou essa influência na letra de “Chama o síndico”. A maior comprovação da evidência e importância de algo era ser noticiado pelo jornal: não se tem dúvida, deu no “New York Times”!
A virada do século assistiu a crise desse modelo. O século XX terminou e o XXI iniciou sob o espectro da era digital e a informação não era mais exclusividade dos tradicionais meios de informação e comunicação. A informação agora estava a apenas um click, era abundante, e a preocupação era então como organizar e filtrar aquele turbilhão de dados.
Nos dias de hoje vivemos sob o império do algoritmo. Chega até nós apenas o que os softwares das redes sociais já reconheceram e selecionaram como algo que queremos ver. Assim, as pessoas não leem os jornais ou veem o noticiário para se formar ou informar como no passado, mas para se confirmar. Castells alertou em sua passagem pelo Brasil que as pessoas leem ou assistem apenas o que sabem que vão concordar. Nem chegará até elas algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. Se vivemos então sob um novo tipo de ditadura, esta é uma ditadura de pensamento único, inaugurada pela era do algoritmo, que não aceita e nem vê o contraditório, a era da compreensão deformada da realidade social, a triste era da ditadura da desinformação.
Publicado no Site do Jornal Diário de Santa Maria em 07 de agosto de 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/ditadura-da-desinforma%C3%A7%C3%A3o-1.2158506

Pós-mentira


Em 2016, a Oxford Dictionaries, departamento da Universidade de Oxford elegeu o vocábulo "pós-verdade" como a palavra do ano na língua inglesa. Ela é também, e certamente, uma palavra central para pensar as circunstâncias que vivemos no Brasil de hoje. Entretanto, por aqui, subvertemos a expressão inglesa, extrapolamos seu significado, esgarçamos seus limites e, possivelmente, tenhamos instaurado, assim, a pós-mentira!Resultado de imagem para pós verdade
Na origem, a expressão “pós-verdade” foi usada pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesic e designava uma situação em que na hora em que se desenha a opinião pública, os fatos objetivos importam menos que nossas crenças e valores. Mas o que é mais grave é o seu uso político, pois é uma política pós-factual. Equivale a dizer que não importa se algo é verdade ou não, mas o tanto de impacto que pode causar antes de ser verificado ou comprovado. Depois do estrago feito vem a se saber que não era verdade, que se tratava de mentira travestida de verdade, mas aí o estrago já está feito, cumpriu sua função!
 A questão, portanto, é que não se trata de pós “verdade”, mas de pós “mentira”, pois o que se comprova post factum é a sua inveracidade e não sua veracidade. Mas por que aceitamos isso? Por que convivemos com isso? Por que tantos acreditaram, por exemplo, no “kit gay”? Uma mentira distribuída como verdade e em escala industrial, responsável direta pela ascensão da mentira ao poder. Como isso foi possível?Resultado de imagem para pós verdade
Uma narrativa judaica talvez ajude a responder. Ela conta que certa vez, a mentira e a verdade se encontraram. A mentira disse para a verdade: “Que dia lindo!” A verdade olhou para o céu desconfiada, mas percebeu que estava um lindo dia de sol. Elas andaram um pouco e chegaram até uma fonte, quando a mentira a convidou para se banharem. Novamente incrédula a verdade conferiu a água, achou bastante aprazível e aceitou o convite para o banho. Despiram-se e entraram na água. Percebendo a verdade distraída, a mentira saiu da água, vestiu-se com as roupas da verdade e foi-se dali. A verdade, por sua vez, recusou cobrir-se com as vestes da mentira. E por não ter do que se envergonhar, saiu a caminhar nua pelas ruas e vilas.
Deve ser por isso que muitos de nós se recusam a encarar a verdade, pois ela põe a nu nossas crenças e valores. Preferimos agir hipocritamente escondidos em “pós-mentiras” e fakenews, desde que vestidas de verdades.  Sem elas sentiríamos vergonha de aplaudir mitos idiotas e falsos heróis, ficaríamos constrangidos diante da nudez de nossas mentiras imediatas; seria insuportável não ter como justificar nossas escolhas, ódios e preconceitos.
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 20 de novembro de 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/colunas-tem%C3%A1ticas/p%C3%B3s-mentira-1.2183492

sábado, 3 de agosto de 2019

Protegido pelas sombras

Em 16 março de 2016 o então juiz Sérgio Moro publicou as gravações de grampo dos telefones de dois Chefes de Estado, um deles em pleno exercício de suas funções. As conversas foram veiculadas em telejornais de TV aberta, em rede nacional. Moro justificou sua ação de dar publicidade aos grampos, com base nos Artigos 5º e 93º da Constituição. Declarou que "A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem seus governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras". Estava aberto um precedente perigoso.
É importante lembrar que esse tipo de grampo telefônico só pode ser realizado com autorização expressa do Supremo Tribunal Federal, jamais por um juiz de 1ª instância. A justificativa da moralidade não pode atropelar os ritos legais. Um dos participantes da conversa, a então Presidenta, tinha prerrogativa de foro por função, e caberia à primeira instância apenas mandar as provas para a corte indicada. Dilma só poderia ser processada e julgada pelo STF, conforme manda o artigo 102, inciso I, alínea "b", da Constituição Federal. Ou seja, a única decisão que Moro poderia tomar na época a respeito da gravação seria enviá-las ao Supremo, para que lá fosse decidido o que fazer com essas provas.
À época, o então Ministro do Supremo Teori Zavascki, cassou a decisão de Moro alegando que o decreto de fim do sigilo dos grampos foi ilegal e inconstitucional. Para ele, Moro violou o direito Constitucional à garantia de sigilo dos envolvidos nas conversas. Cabe "apenas ao Supremo Tribunal Federal, e não a qualquer outro juízo, decidir sobre a cisão de investigações envolvendo autoridade com prerrogativa de foro na corte", declarou Teori. O Ministro do Supremo não teve tempo de dar sequência à sua investida em favor da legalidade, dez meses depois de contrariar Moro, o avião em que viajava caiu!

Nesta semana, os papéis se inverteram e Moro provou do próprio veneno. Reportagens do jornalista Glenn Greenwald foram publicadas pelo site The Intercept e mostram trechos de conversas trocadas entre o procurador da República Deltan Dallagnol e o próprio ex-juiz federal Sergio Moro, hoje Ministro de Estado. É importante lembrá-lo do que ele mesmo defendia: que a democracia exige que os governados saibam o que fazem seus governantes, mesmo quando estes agirem na obscuridade. Moro acreditou estar protegido, mas não estava. É o títere de um processo sombrio e tenebroso, repleto de fantasmas. Sua cruzada moralista ao arrepio da lei conhecerá aquilo de que realmente uma democracia não pode prescindir, o respeito aos limites da lei, mesmo quando acreditar que esteja acima dela e protegido pelas sombras!
Publicado no Site do Jornal Diário de Santa Maria em 12 de junho de 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/protegido-pelas-sombras-1.2146824

Justiça tem lado?

Os áudios vazados no fim da tarde dessa terça-feira, dia 08 de julho, pelo site The Intercept provocam uma discussão sobre a atuação do sistema judiciário brasileiro. Um Procurador da República comemora que um ex-presidente, em época de campanha eleitoral, fica impedido por uma liminar do STF, de dar entrevista aos jornalistas Florestan Fernandes e Mônica Bergamo. Isso nos permite perguntar: justiça tem lado? O procurador aconselha seus colegas manterem discrição pois se houver alarde sobre a liminar poderá haver "recurso do outro lado (...) por quem tem uma posição contrária à nossa".
Uma volta no tempo nos permite perceber o papel do judiciário na sociedade Moderna. Com a Revolução Gloriosa, na Inglaterra de 1688, nasce o inédito direito de destituir juízes, transferido do Rei para o Parlamento. Assim, surge a independência política do judiciário. Independente, ele não precisa mais ter lado, pode atuar apenas atento aos pressupostos legais. Mais tarde, na Alemanha, há exatos 100 anos, com a constituição de Waimar, fica estabelecido o papel do judiciário na estrutura do Estado. Ela reorganizou o Estado em função da Sociedade e não apenas do indivíduo. Mais que isso, consolida a independência da justiça em relação à política e às mudanças e dissabores da sociedade. 
A justiça agora está do lado da lei! O judiciário então, torna-se intangível pelo poder político justamente pelo seu papel técnico, que exerce a função de aplicação normativa e não de decisão originária normativa, que é papel do Parlamento. Este sim deve "ter lado" e defender os interesses de quem o elegeu. 
No brasil, o pacto de independência entre os poderes está estipulado na constituição de 1988 e ali está posto a função de cada um no Estado brasileiro. Não é função do judiciário participar de acordos políticos ou agir politicamente, comemorar ou aconselhar quaisquer das partes. O Poder Judiciário deve à sociedade o papel subalterno de aplicador da norma e não de agente político. O judiciário, portanto, não pode participar de pactos políticos, sob pena de incorrer em evidente improbidade. 
A função do judiciário, tomando-o dentro de uma compreensão política mais ampla do termo, é uma ação política interpretativa, de aplicação da norma; não uma ação política instaurativa, propositiva do que é novo, originária de novas relações, de uma nova estrutura social, isso é política no strictu senso e devem ser os políticos a fazê-la. 
Nesses termos, ouvir os áudios de um Procurador comemorando o fracasso legal de uma das partes é de uma covardia inominável. Assim colocado, totalmente afeito a uma das partes, o judiciário, que deveria ter uma função reativa às ilegalidades, torna-se ele próprio ativo e protagonista do uso político da lei, do lawfare. E o pior de tudo, só verá problema nisso quem tiver uma opinião "contrária à nossa", ou melhor, contrária ao lado que a justiça parcial que esse específico Procurador defende!

Publicado originalmente no site do Diário de Santa Maria em 10/07/2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/justi%C3%A7a-tem-lado-1.2152627

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Pauta de aluna do Curso de Jornalismo da UFSM - Relevância social e política da praças e espaços públicos

- Historicamente falando, qual é o papel da praça pública no âmbito político?
- Este papel se manteve ao longo do tempo ou sofreu alterações?
- No país, quais foram os períodos com maior ocorrências de manifestações políticas?
- Quais são as pautas mais recorrentes das manifestações?
- Em processos como, por exemplo, Diretas Já e Impeachment de Collor e Dilma, a força popular nas ruas foi determinante? Neste sentido, quais são as potencialidades das manifestações?
- É possível relacionar os movimentos de "esquerda" às manifestações em espaços públicos? Se sim, por que isso acontece?
- As manifestações necessariamente têm um lado político? 
- O uso de espaços como a praça, por candidatos a cargos públicos em período de campanha, é estratégico? Isso mudou ao longo do tempo? 
- Para finalizar, falando especialmente de Santa Maria (se você souber responder): Quais são as peculiaridades de Santa Maria no que diz respeito às manifestações políticas? O fato de ser uma cidade universitária influencia nisso?

Questões 1 e 2, sobre a questão do papel histórico da Praça
A noção de espaço "público" é uma concepção bastante recente na história. Ela data do mesmo tempo da consolidação do Estado Moderno, que tem seu ápice no século 18, mas que se estende até o fim do dezenove. Junto com ele surge essa ideia de "espaço público", de espaço compartilhado, aquele que é coletivo e "de todos" ao mesmo tempo que é de cada um. As praças são os ícones do espírito desse tempo e desses espaços. É para elas que grandes grupos de pessoas convergiam para conviver, praticar lazer, ócio, comércio... Em 2017 publiquei no meu blog um breve texto do qual trago esse trecho:

"Ao longo dos séculos 18 e 19, o “Porto de la Grève”, situado às margens do rio Sena, tornou-se o coração comercial de Paris. Formou-se em seu entorno um grande mercado por onde chegavam bebidas, grãos, feno, madeira, fazendo deste lugar um dos mais populares daqueles tempos. Tinha esse nome pois ficava à frente de uma praça chamada "Place de Grève". “Grève”, em francês, quer dizer lugar plano, pedregoso ou arenoso situado às margens do mar ou de um curso de água. Com o tempo a praça passou a abrigar também muitos operários, que ao amanhecer, reuniam-se à espera de trabalho. Eram no geral pessoas precarizadas pelo crescente desemprego. É desse contexto social que a expressão “greve” remete a trabalhadores paralisados em sua atividade laboral. Ainda no Medievo, a "Place de Grève" servira para torturas e execuções públicas; foi nela também que pela primeira vez em 1792 a guilhotina foi acionada." (http://antropologiaufsm.blogspot.com/2017/10/la-greve.html)
Como você pode ver, ao longo da história Moderna, as praças significaram verdadeiros lugaras sociais de memória, de coabitação, de realização de uma certa efetivação de cidadania, mesmo que uma cidadania formal e burguesa. Sendo assim, as praças são e sempre foram lugares socialmente políticos, de presença, de lutas e resistência, de ação e inação, de expressão das pautas e agendas sociais de cada tempo e de cada espaço.
Com o tempo, e o advento das redes sociais virtuais, bem como o crescimento das cidades e seus índices de violência, somados à depauperação dos espaços públicos, em especial nas regiões mais populares e de periferia, as praças se tornaram lugares remotos, abandonados, perdendo contemporaneamente, parte de sua centralidade e importância, bem como de seu papel de espaço público compartilhado.

Questão 3, sobre os períodos com maiores ocorrências de manifestações políticas
No Brasil a disposição de espaços públicos, no estrito sentido do termo, datam, obviamente, do advento da República. Portanto, é de depois dela que os espaços públicos passam a ter relevância política mais contundente. Um ano antes dela, a Abolição formal da escravidão foi um luta travada nas ruas e nas estradas por movimentos citadinos e camponeses em prol de uma causa social... depois disso, as revoltas que resultaram nas greves de 1917 também forma lutas políticas travadas nas grandes praças do centro do País. Manifestações políticas propriamente de rua nunca foram a lógica mais comum num país como o nosso, talvez pela cidadania tão tardia que conquistamos e a constante lógica violenta e repressiva dos donos do poder. Creio de depois de 1917, tenhamos ocupado a rua novamente de forma mais sistemática e massiva, somente durante a ditadura civil empresarial militar. Nesse período foram várias ocasiões de ocupação e pressão política popular. O Movimento Diretas Já, que começou timidamente em junho de 1983, foi a tentativa da oposição, de que criando uma grande mobilização popular, poderia impor a regra de voto direto para eleger a sucessão presidencial. O movimento ganhou vulto 1984 quando um grande frente de lideranças levaram a cabo a Caravana das Diretas reunindo nas ruas do país perto de 1 milhão de pessoas. Mesmo com toda essa força, a pauta foi derrotada em abril de 1984, restando, entretanto, na população a sensação de que a mobilização popular era uma força política importante no cenário do poder. Mais recentemente, durante o governo Collor, o movimento cara-pintadas desempenhou importante papel na derrubada do governo (1992). Collor convocou a população para sair às ruas de verde e amarelo, mas a reação popular foi adversa. As pessoas foram espontaneamente às ruas vestindo preto, tiras pretas no braço e panos pretos nas antenas dos carros. Todos pintavam os rostos de preto ou verde e amarelo gritando "fora Collor" e "impeachment já". Derrubaram o governo!
Por fim, a partir de 2013 temos acompanhado novamente mobilizações nas ruas. Assim escrevi há alguns dias no meu blog (http://antropologiaufsm.blogspot.com/2019/05/e-so-o-comeco.html)
É bem verdade que entre 2013 e em 2016 a população foi às ruas, mas naquele momento o que os impelia não eram suas consciências propriamente ditas; eram, em verdade, estímulos externos, a maior parte deles impulsionados pelos “think tanks”, os tanques de cérebros, repositórios intelectuais de ideias contrárias aos ideais populares. No limite, eles foram e são as organizações por trás da guinada da direita na América Latina, guiada por ideais e interesses neoliberais e contrários aos mais pobres, aos trabalhadores, em especial aos mais jovens.
Penso que sejam essas as principais emergências populares em nossa história recente.

Questão 4, sobre as pautas das manifestações
Por tradição política e histórica, as pautas de nossas manifestações políticas são sempre reformistas e reativas. Propõem reformas no sistema político e e são reações a governos de que não gostam. Nunca foram reivindicações anti-sistema. Esse é um inegável traço conservador e burguês de nossa população. Nunca esteve na agenda das reivindicações públicas, subverter o sistema, tomar meios de produção, produzir mesmo uma revolução, atacar diretamente a elite no poder, nas palavras do sociólogo Jessé Souza, destituir a "elite do atraso".
Questão 5, que trata sobre se as manifestações no Diretas Já, Impeachment de Collor e Golpe sobre Dilma, foram determinantes.
É preciso diferenciá-los:
Em todos os casos as manifestações e mobilizações populares foram determinantes, mas cada um a sua maneira.
No caso das Diretas Já foi uma causa perdida. A Emenda Constitucional Dante de Oliveira foi rejeitada na madrugada do dia 26 de abril de 1984. Assim, o vodo direto para presidente não foi possível, mas as forças que detinham o poder perceberam que a derrota era uma questão de tempo, as massas ganhavam importância.
No caso do Impeachment, a mobilização popular obteve êxito. Sua mobilização foi decisiva para a derrubada do presidente. 
No caso do Golpe misógino, jurídico, midiático, parlamentar contra a presidenta Dilma, as mobilizações foram decisivas, porém não em favor do empoderamento das pautas populares. Entre 2013 e 2016 estivemos (como ainda hoje) sob efeito de uma guerra híbrida. Uma guerra que não veste farda, mas sim, toga. A vitória das mobilizações sobre o governo instituído trouxe derrotas a setores e demandas populares. Entregando riquezas nacionais a interesses internacionais. 14 meses depois das mobilizações de 2013 elegemos o congresso mais inepto, conservador e golpista de nossa história. Congresso este que votou o Impeachment do Presidenta, inventado artificialmente um crime de responsabilidade fiscal. As mobilizações de 2016 defendiam pautas regressivas, conservadores, golpistas, moralistas, e contrárias a interesses historicamente populares. 

Questão 6, sobre as esquerdas e os espaços públicos
Sim, os espaços públicos são os espaços políticos por excelência, das esquerdas, dos progressistas, daqueles que querem mudanças. A última vez que a burguesia usou legitimamente o espaço público foi na Revolução Burguesa, na França, em 1789. Depois disso, ela extinguiu a monarquia, tomou o poder, conquistou os meios de produção de riquezas, fundou o estado moderno para legitimá-los e nunca mais quis saber de revolução, manifestações, balbúrdias.... tornou-se conservadora daquilo que tinha conquistado. Não há razões para a direita burguesa querer instabilidade, desordenando os espaços públicos. Quando ela faz, faz de maneira falsa, criando uma espécie de "rebeldia conservadora", parecendo rebelde, mas buscando manter, e até ampliando, o poder nas mão dos donos do capital.

Questão 7, sobre as manifestações terem um lado político
Sim, toda manifestação pública tem um caráter, um cunho político. 

Questão 8, sobre o uso da praça por candidatos
A nova lei eleitoral é a resposta para essa pergunta. A restrição do uso do espaço público para as campanhas políticas é uma medida que apenas beneficia os donos do poder e enfraquece setores populares. Concentrar as campanhas dentro do rádio e da televisão é uma medida que retira o jogo político do espaço público e enfraquece a ação e as organizações populares.

Questão 9, sobre Santa Maria
Santa Maria é uma cidade com características bem peculiares. moro aqui há 25 anos e ainda procuro entender o comportamento político da cidade, sempre muito intrigante. Ao mesmo tempo que há muitos jovens, é uma cidade universitária, é também um pólo regional, onde há um setor de serviços muito pujante. É um pólo militaresco, guardando esse importante marcador em sua fisionomia ídeo-política. Pode-se concluir então que Santa Maria é uma "colcha de retalhos" no que se refere às suas características políticas. Por ser tão multifacetada, historicamente tem resultante pendular em seu comportamento político, ora pendendo mais à esquerda ora pendendo mais à direita nas suas preferências eleitorais. 
O fato de ser uma cidade universitária, entretanto, não parece ter preponderado em sua trajetória política. Não é uma regra o fato de que jovens adotem posturas políticas mais progressistas, mas é uma tendência evidente que jovens estejam sempre mais abertos e menos resistentes àquilo que pode beneficiar sua formação e seu futuro, rechaçando qualquer medida que venha a ferir sua principal conquista: a liberdade de expressão.

Andressa, espero ter contribuído. Agradeço a confiança e fico a disposição para qualquer atividade. Posso fazer uma fala presencial aos seus colegas, se assim julgarem válido, na disciplina em questão. Para mim é favorável qualquer horário desde segunda até quarta pela manhã.

Um fraterno abraço e bons estudos

quarta-feira, 15 de maio de 2019

É só o começo!


Hoje está sendo um dia de manifestações em todo o Brasil. Há tempos não se via tamanha vontade popular de lutar e resistir. Ao que parece, pode ser um primeiro passo em direção ao rescenso das massas no sentido da sua autonomia intelectual, de sua autodeterminação, pode ser só o começo da retomada de seu protagonismo de lutas e militância.
É bem verdade que entre 2013 e em 2016 a população foi às ruas, mas naquele momento o que os impelia não eram suas consciências propriamente ditas; eram, em verdade, estímulos externos, a maior parte deles impulsionados pelos “think tanks”, os tanques de cérebros, repositórios intelectuais de ideias contrárias aos ideais populares. No limite, eles foram e são as organizações por trás da guinada da direita na América Latina, guiada por ideais e interesses neoliberais e contrários aos mais pobres, aos trabalhadores, em especial aos mais jovens.
Não é de se estranhar que o reascenso de agora tenha seu germe na Educação. É ela o setor mais castigado pelas crueldades do novo Governo.
Foi entre 2005 e 2012 que o Ministério da Educação promoveu expansão e interiorização do ensino superior. Dessa forma, foram criadas 18 universidades federais, foram construídos 173 campi universitários, foram construídos 360 institutos técnicos federais, foram concedidas dois milhões de bolsas do ProUni, foram financiados dois milhões e meio de pobres que não tinham como entrar na universidade, senão pelo FIES. Tudo isso permitiu aos jovens, principalmente os mais pobres, sonhar e efetivamente participar como protagonistas da produção de conhecimento e da divisão sociotécnica do trabalho.
Ora, basta observar as datas! Essa ascensão social promovida pela Educação pôs em pânico a classe média conservadora. Detentora histórica do capital simbólico promovido pelo conhecimento, a classe média higienizada se viu dividindo o espaço que julgava exclusivamente seu com as filhas e filhos das empregadas domésticas, dos pedreiros, dos mais pobres; se viu competindo no mercado de trabalho com gente que até então lhe servira como subordinado e subserviente. Foi isso que a fez servir de tropa de choque, massa de manobra do processo que culminou no golpe de 2016.
Se é momentaneamente mais difícil a luta contra o poder econômico, cuja manutenção pertence à “Elite do Atraso” nas palavras do sociólogo Jessé Souza, a luta pela democratização do conhecimento é a pauta possível e mais urgente da agenda política do momento. Setores populares da sociedade brasileira, e em especial os jovens, são os que mais se beneficiam dos investimentos em educação. É por essa razão que são eles que estão hoje no pelotão de frente da resistência. Que seja só o começo!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, por conta dos protestos em favor da educação e contra os cortes do governo
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/%C3%A9-s%C3%B3-o-come%C3%A7o-1.2141453

domingo, 28 de abril de 2019

Trabalho e segregação


Há alguns anos, em uma aula para alunos do curso de Arquitetura discutíamos como nós brasileiros, em nossa organização da vida doméstica segregamos, pelo trabalho, a forma como habitamos, convivemos e nos relacionamos em sociedade. O jornalista Anselmo Goes reporta que para atender à demanda de brasileiros mudando-se para Portugal as construtoras de lá vem fazendo adaptações nos projetos, que inclui “quarto dos fundos”, “área de serviço” e até “tanque”, imitando a forma segregadora que fazemos por aqui
Nessa aula, veio à discussão a questão do “quarto de empregada”. Como vimos, não há esse conceito em outros países, somos nós que o levamos para fora. Ele é uma espécie de senzalinha moderna, mal ventilada, mal iluminada, geralmente entulhado de bugigangas, em que enfurnamos pessoas. O quartinho de despejo é a reminiscência do nosso passado escravocrata e excludente. É lá que a empregada da casa se recolhe enquanto os patrões almoçam. Só depois esta mesma empregada, às vezes com seu filho, pode comer. Não precisa haver, nesse cenário, nenhum gesto explícito de preconceito de classe, nenhuma a palavra ofensiva, por vezes racista ou misógina. O ato em si é um gesto pedagógico e ensina que aquela mulher e seu filho ou filha não são seres como o mesmo estatuto social (e humano) dos patrões. O gesto os faz crer, perversamente, que são seres de segunda classe. Essa criança guardará para a vida o sentimento e a percepção de que para ela, as coisas são depois, crescerá naturalizando a segregação, contentando-se com as sobras.
Outra questão que veio à discussão na aula foi a do elevador “de serviço”. O mesmo aluno argumentou sobre sua necessidade e exemplificou: “imagina colocar gesso no décimo andar e ter de compartilhar o mesmo elevador com outros moradores!” O gesso faz muita sujeira, solta pó, sujaria o espaço e as roupas de todas e todos. Concordei, mas não sem ressalvas, lembrando que mesmo depois do serviço concluído, já limpos, os colocadores de gesso, continuavam utilizando o elevador de serviço. Prova de que o que está sendo segregado não é a natureza do trabalho, mas as pessoas que o realizam.
Podemos confirmar essa conclusão lembrando daquela empregada do um outro apartamento que desce já sem sua roupa de trabalho, banhada, mas mesmo assim desce pelo mesmo elevador de serviço. Ah sim, talvez seja porque ela desça carregando a sacolinha de lixo! E mais, se não o fizer, será reprendida pelo porteiro; sempre muito limpo e vestido alinhadamente; mas que, curiosamente, só usa o elevador social quando sobe ajudando a carregar sacolas. E ainda desce de volta até a portaria pelo elevador de serviço, todo sujo de gesso!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 20 Fevereiro 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/trabalho-e-segrega%C3%A7%C3%A3o-1.2125047