Participação na reportagem sobre a greve dos professores estaduais do Jornal Diário de Santa Maria dia 05 de agosto de 2017
Esse espaço é um laboratório de Teoria Social. Quanto a mim, sou antropólogo e professor na Universidade Federal do Pampa. Tenho graduação e mestrado em Ciências Sociais, licenciatura em Sociologia, especialização em História do Brasil, doutorado e pós doutorado pela UFSM.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Paula desmilitarização - Jornal Semanário
Jornal Semanário - Bento Gonçalves - jornalista Nicholas Lyra
1.
Na semana passada, tivemos uma ação em Bento
Gonçalves, em uma praça do Centro da cidade, que chamou a atenção. Na foto,
diversas pessoas aparecem com as mãos pra cima, sendo revistados pela Brigada
Militar, que alegou estar combatendo o tráfico de drogas, roubos a pedestres e
assaltos ao comércio. No entanto, nada foi localizado nas revistas, e ninguém
foi preso por nenhum crime. A linha entre combate a esses crimes e o
cometimento de excessos, e até mesmo repressão da sociedade, é muito tênue?
Esse tipo de estratégia tem sido largamente utilizada pelo
comando da Brigada. São feitas ações em locais de movimentado passeio público
no sentido de impactar a opinião pública sobre ações preventivas da polícia. Se
forem executadas a partir de um anterior e estratégico plano de inteligência,
tendem a ter resultados muito satisfatórios; entretanto, da maneira como vêm
sendo conduzido pela polícia militar, apenas demonstra o tanto que a corporação
está enfraquecida, desesperadamente tentando “mostrar serviço” frente a uma
população que cobra ações mais efetivas da polícia.
2.
Essas ações não acabam sendo mais para causar
uma sensação de segurança na população, quando na verdade os problemas reais de
segurança pública não estão sendo combatidos?
Concordo com a afirmação do
início da pergunta. É uma tentativa de causar na opinião pública apenas uma
sensação de segurança, mas não uma segurança efetiva. A pasta da segurança
pública é de altíssimo orçamento e não está entre as prioridades do atual
Governo. Investir em inteligência, incrementar planos de carreira, qualificar
salários e treinamento, adquirir equipamentos (armamentos e de proteção)
modernos e em condições efetivas de uso são de altíssimo custo. Essas seriam
estratégias reais de qualificação da corporação e da segurança pública; porém,
não está entre os interesses políticos do atual Governo, muito mais
compromissado com interesses privados de sucatear e lucrar com o empobrecimento
do setor público.
3.
As forças de segurança acabam, de certa maneira,
atuando como uma espécie de instrumento de repressão do Estado, como que
“institucionalizando” a violência?
As forças de segurança, em
especial as militarizadas, são formas tradicionais de repressão política. São
institucionalmente constituídas para tratar como caso de “polícia” o que na
verdade são casos de “política”. Enredados em formas rançosas de disciplinas
toscas, aplicam suas forças punitivas sobre gente comum; sobre manifestantes,
grupos sindicalizados que lutam pela garantia de direitos sociais para toda a
população. É muito triste assistir brigadianos defendendo um governo que
parcela salários e descumpre a constituição, reduz direitos sociais e entrega o
patrimônio público ao setor privado. Brigadianos e professores não estão de
lados opostos, como aparece nos protestos; mas compartilham as mesmas
dificuldades, o mesmo plano de saúde, o mesmo parcelamento dos seus salários.
4.
Quais os grupos são historicamente mais prejudicados
por isso?
Os grupos mais enfraquecidos
são justamente aqueles que possuem as pastas mais onerosas: segurança e
educação. São orçamentos muito altos e categorias muito numerosas. Basta ver o
enfraquecimento sindical dessas categorias. Estão despolitizados,
desmobilizados, não conduzem a um efetivo enfrentamento político. Este governo
penaliza mais severamente o Executivo, pois sabe muito bem o custo político de
se indispor com o Judiciário e com o Legislativo. Categorias historicamente
enfraquecidas e desarticuladas (professores, policiais civis, brigadianos) são
os que já vem mais de perto sentindo os achaques da caneta de um Governador sem
compromissos com suas pautas.
5.
Existem teóricos que afirmam que as formas e a
cultura de repressão utilizadas pelas Polícias Militares, especialmente em
países latino-americanos, ainda seriam heranças das ditaduras militares vividas
nos continentes. O senhor concorda com essa afirmação?
De certa forma sim. Os países
que nunca foram colônia ou livraram-se do imperialismo pelas próprias forças
tendem a ver a militarização como uma forma de civismo público, de soberania
nacional; seus corpos militares significam uma defesa da população civil, do
patrimônio público, daquilo que pertence a toda população. Já entre países que
foram colônias e que saíram dessa condição para a de submissos aos impérios
industriais (América Central e Latina, África e parte da Ásia),a militarização
tem outra conotação. Historicamente as forças militares sempre foram usadas
para achacar a própria população civil. Proteger os governos sub imperiais das
forças econômicas dominantes. Vou dar dois exemplos: o exército brasileiro
nasceu pelas mãos imperiais que deu a Duque de Caxias a missão de demover a
Balaiada no Maranhão. Os “balaios” eram gente comum, civil, cansada de ser
explorada pelo governo imperial. Hoje, um bandido, assassino, facínora como
Caxias dá nome a escolas. É como se judeus chamassem uma escola pública judia
de “Escola Hitler”. Outro exemplo é a nossa própria Brigada Militar. Ela nasceu
das forças governamentais interessadas em amassar militarmente as forças
Farroupilhas, gente comum, população civil, que lutava contra um governo
explorador. O mais inacreditável é que hoje, justamente os Piquetes das
Brigadas Militares que abrem os desfiles Farroupilhas dos municípios. Ou seja,
aqueles que abrem a celebração máxima da memória histórica farroupilha, são
justamente os que foram criados para combater e assassinar bravos heróis
farroupilhas. Dessa forma, em ex colônias e nações imperializadas (como as
ditaduras militares da América do Sul), as forças militares não formas de
defesa da soberania nacional, mas formas de opressão e achaques da própria
população civil.
6.
A desmilitarização das polícias talvez fosse um
caminho para diminuir esses excessos? É necessário um debate mais amplo sobre o
tema?
Sim, é necessário que o debate
seja aberto. Embora haja todos estes problemas decorrentes da forma
militarizada de constituir as forças policiais, a mesma militarização é ainda
uma forma de coesão e ordem de forças tão enfraquecidas. É preciso discutir
questões mais profundas, como formas de financiamento público para setores tão
importantes como a segurança, como é imperioso também discutir de forma pública
e aberta os direitos público e civil que os corpos militares têm de se
manifestar em uma democracia. Proibir um militar de fazer greve ainda é como
retroceder na história a tempos em que a greve nem era um direito
constitucional (1ª metade do século passado)
7.
Essas são as questões principais. Caso haja
algum outro comentário a ser feito sobre o assunto, e que não foi perguntado,
podes ficar a vontade para colocar. Mais uma vez, agradeço tua atenção e
disponibilidade, e aguardo retorno.
Agradeço a oportunidade, at.te,
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Local:
Santa Maria, RS, Brasil
Da paróquia para o cartório
No
último dia 30, o Parlamento alemão aprovou a legalização do “casamento” entre
pessoas do mesmo sexo. Foi uma vitória política de peso dos sociais democratas
sobre os conservadores. Isso me levou a refletir sobre a legislação acerca do
mesmo tema no Brasil. Por aqui, desde 2011, este tipo de “união” está
chancelada pelo Supremo Tribunal Federal que reconheceu a “família homoafetiva”,
conferindo aos casais homossexuais o direito à “união estável”.
Na
Europa ocidental, a chamada “união civil homossexual” é amplamente reconhecida.
Na América, o “matrimônio homossexual” é legítimo no Canadá; e nos Estados
Unidos somente em 2015 a Suprema Corte legalizou este tipo de união para todos
os americanos. Entre os latinos, além do Brasil, apenas seis países reconhecem
algum tipo de “união” ou “casamento” entre pessoas do mesmo sexo.
O
que chama a atenção, em todos os casos, é a confusão semântica trazida pela
forma como se denominam estes tipos de uniões civis e sociedades conjugais. Tende-se
a tratar como “coisas de natureza” noções de mundo que são socialmente
construídas. O sociólogo Pierre Bourdieu, em “A dominação masculina”, alerta
como isso é perigoso. O que é simbólico acaba sendo interpretado como sendo
biológico ou inato. É ideológico porque quando se justifica algo biologicamente
se está dizendo que não pode ser de outa maneira, e deve ser aceito
acriticamente.
No
caso brasileiro isso é peculiar. A expressão “casamento” aparece na
Constituição brasileira sete vezes; ele é o nome que nossa Carta Constitucional,
em seu Artigo 226, dá à “sociedade conjugal”. O termo “casamento” está
naturalizado em nosso Código Legal. Note-se que o termo “casamento” é uma
nomenclatura religiosa e com isso carrega consigo uma forte carga conservadora
de uma sociedade patriarcal. No texto “Brasil: uma biografia”, a antropóloga
Lilia Schwarcz narra que até a vinda do movimento cartorário para o Brasil,
concomitante à vinda da Família Real em 1808, os registros civis (nascimentos, óbitos,
matrimônios) eram feitos nas paróquias das igrejas católicas. Depois disso,
migraram delas para os cartórios de registros civis. O prejuízo social se deu
em razão da confusão semântica que esta transição implicou. Nos cartórios, o
que as paróquias chamavam de “casamento”, deveria denominar-se “Sociedade
Conjugal”, um contrato civil comum.
Mais
do que constituir um direito, ao legislar sobre “sociedades conjugais” da vida
civil da sociedade, o Estado regula sobre os corpos e a sexualidade, sobre a
vida íntima, pessoal e secreta dos sujeitos. Dar nome é atribuir valor, e esse
valor nada tem de natural; ele é cultural. Ao migrar para os cartórios, a instituição
social do “casamento” carregou consigo perversamente, além da nomenclatura,
toda carga moral, semântica e religiosa que lhe constituía: monogâmica,
heterossexual, misógina e andronormativa.
Texto publicado no Jornal diário de Santa Maria em 17/07/2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/geral-policia/noticia/2017/07/da-paroquia-para-o-cartorio-9832579.html
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Santa Maria, RS, Brasil
Militontos
Ao viver tempos de
tamanho acirramento de ânimos, fico pensando sobre o que deve nos mover a lutar
por tempos melhores, por uma sociedade diferente. A pergunta é: pelo que
militamos? O que nos leva às ruas? Quais são as causas? Que país queremos e
pelo qual devemos militar? O professor Carlos Lessa, aposentado pelo Instituto
de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, se diz assustado pelo
que chama de desconstrução da identidade brasileira, e, associada a ela, a ausência
de um “projeto nacional”, de um projeto de país, um projeto educacional e
cultural claro, um projeto industrial explicitado. Por onde podem prosseguir
estas questões? Segundo o professor, saiu de pauta! E mais, há um processo
ideológico assustador pelo qual estamos renunciando a ideia do Brasil “ser”. Somos,
nesse sentido, militantes sem uma verdadeira causa, sem um projeto político
sólido e transformador que a substancie, na verdade então, meros “militontos”.
A palavra militante
tem origem Celta. Na Roma antiga, mais especificamente na Península Ibérica,
formavam-se grandes fortificações, os chamados “Castrum”, que arregimentavam
pessoas para lutar em sua defesa. Durante períodos de conflito, as populações
que habitavam o campo aberto se recolhiam nos ditos “castros”, áreas protegidas
e reservadas às legiões romanas. Como havia muitas pessoas, e muitas delas se
voluntariavam à luta, eram selecionadas pelo critério de um em cada mil. Assim,
aquele “milite” escolhido não fazia pesar um rótulo de desonra para os muitos
preteridos. Com o tempo, a palavra “milite”, aquele que luta, ganhou valor
idiomático, de “coisa principal”.
Militante, portanto, por definição, é aquele que se dedica a lutar pelo
que há de mais nobre, por aquilo que realmente valha a pena militar.
Vejamos alguns
exemplos ao longo da história, de verdadeiras lutas que moveram militâncias,
por causas igualmente grandes, socialmente significativas. O primeiro deles que
vem em mente é o da Revolução Francesa, em verdade, uma revolução burguesa.
Cansados de sustentar com seu suor, seus nervos, músculos e sangue os
privilégios da nobreza, os comerciantes e pequenos industriais burgueses,
camponeses, proletariados urbanos, promoveram uma das maiores transformações
sociopolíticas que a história moderna registra. Derrubaram a nobreza e
refundaram a sociedade francesa sobre novas bases. Com isso, revolveram não
somente sua própria sociedade, como também instituíram uma nova gramática
social e política que reverberou por todo Ocidente. Como se vê, os militantes
que foram à rua, que incendiaram a Bastilha e cortaram a cabeça de Luís XVI,
tinham, de fato, uma grande causa: transformar profundamente seu país.
Pouco mais de meio
século depois, e na esteira desta última, ocorreu a chamada Primavera dos
Povos. As revoluções de 1848, entretanto, tinham nova feição. A burguesia agora
não mais era revolucionária, mas conservadora. Buscava preservar uma certa
ordem que havia então estabelecido sobre a exploração do trabalho das classes
subalternas. Foi a vez da sublevação proletária contra a burguesia industrial.
Esgotados pelas condições severas de vida e trabalho, operários e camponeses,
das cidades e do campo, tomaram as ruas na França, e de muitos outros países da
Europa Central e Oriental, movidos por ideais revolucionários. São os primeiros
registros na história de efetiva mobilização proletária. São os explorados
tomando as ruas e militando em causa própria. São as ditas “classes perigosas”
buscando subverter a hegemonia política da burguesia e seus privilégios. Aliás,
talvez seja exatamente isso que explique seu apagamento dos livros didáticos e
da narrativa histórica mais tradicional. Em minhas aulas, com facilidade, os
alunos lembram nomes de personagens e “heróis” da revolução burguesa de 1789,
mas nem mesmo remotamente sabem dizer um nome dos levantes proletários de 1848,
militantes comuns, gente do povo, mas com ideais claros; que se opunham à
propriedade privada dos meios de produção, sem dúvida, uma nobre causa.
Poderia aqui
examinar muitos outros exemplos e mostrar que em cada caso, o que moveu as
lutas das pessoas eram causas que realmente revolviam em profundidade suas
próprias sociedades. Eram lutas sociais e políticas verdadeiramente militantes!
No entanto, vou apenas enumerar algumas, com o risco óbvio de deixar muitas
delas de fora. A Revolução Americana, que buscava a própria fundação de uma
nação livre e autônoma, uma sociedade que caminharia pelas próprias pernas,
independente do Império britânico; a Comuna de Paris, segundo alguns
historiadores, a primeira e única experiência socialista da história; a
Revolução Russa, que em 2017 completa cem anos e que subverteu completamente
toda ordem social ainda assentada em laços da feudalidade; a Revolução Chinesa
e a Revolução Cubana, que refundaram os modos de produção econômica de bens
sociais de suas nações; a Primavera de Praga, o Maio de 1968 na França, a
Primavera Árabe, todos exemplos essencialmente militantes, assentados em lutas
ideopolíticas e projetos envolvidos com profundas transformações na sociedade.
Infelizmente este
não é o caso brasileiro. Talvez a última seja a mobilização pelas Diretas Já!
Na primeira metade dos anos 1980 vivíamos um período de medo e terror, depois
de mais de duas décadas de ditadura civil militar. Ali havia uma militância
visceral. Lutava-se para sobreviver enquanto sociedade civil. Era votar, ou
morrer politicamente, abdicar socialmente. Havia uma militância viva, ativa,
voluntária. Conhecia-se o “inimigo”, havia um projeto, e era o de um país
democrático. A emenda constitucional foi derrotada no Congresso, mas a
militância não perdeu, por isso, sua dignidade.
Depois disso, só
fizemos descer os degraus da nossa insignificância militante. O evento “Caras
Pintadas” consistiu numa multidão de jovens, maioria deles adolescentes, que
ocuparam as ruas em todo o país com os rostos pintados de verde, amarelo e
azul, como forma de protesto contra o governo. Embora corroído de corrupção,
ruiu porque não interessava mais às elites que o haviam eleito. Foi uma
mobilização convocada pela grande mídia, nominada e orquestrada por ela. A
população na rua “mobilizada” ofereceu sustentação moral e legitimou o fim do
governo. Foi, em verdade, um grande espetáculo midiático, mas nem remotamente
um movimento político popular, propositivo e militante. Aquela multidão de
jovens não tinha sequer ideia de um projeto de país a propor!
Mais recentemente
vivemos as manifestações de junho de 2013, as ditas Jornadas de Junho,
expressão tomada lá dos movimentos de 1848 na Europa. Uma população inteira
mobilizada, espontaneísta, sem pautas claras, tão explosiva quanto efêmera, e o
mais assustador: não admitia bandeiras. Ora, sou de uma geração que lutou nos
anos 1980 para tê-las! Sou de um tempo em que só eram admitidos dois partidos,
a ARENA e o MDB, e este era o depositário de todas bandeiras de Oposição e luta
contra uma Situação covarde, um governo facínora. Nossas bandeiras eram nossas
pautas, nossas bandeiras eram os símbolos concretos de nossos Projetos de
nação, nossas bandeiras nos faziam militantes! Por essa razão, um tipo de
movimento social que não as admite não tem fundamento, não é militante. A prova
disso é que, quinze meses depois das ditas Jornadas, elegemos o Congresso mais
conservador e golpista da nossa história; um covil de despachantes dos cartéis
econômicos. Composto por uma miríade de deputados, fanáticos,
mal-intencionados, como se viu na ocasião do impeachment da presidenta Dilma; à
exceção de raríssimos representantes. Um Congresso inepto, medíocre e
irresponsável, capaz de promover espetáculos dantescos, como a aprovação da lei
das terceirizações e as iminentes reformas trabalhista e previdenciária.
Por último, depois
de gravações e delações expetacularizadas pela mídia, milhares de manifestantes
que a execravam até então, vão às ruas para protestar, pautados por ela! Para
usar uma expressão do sociólogo francês Guy Debord, é a própria sociedade vista
como espetáculo. Uma população ensandecida, sem a mínima articulação de um
projeto político, ou organização partidária sólida, toma o espaço público
acreditando que promoverá alguma mudança substancial. A Direita apoia uma
operação da Polícia Federal; a Esquerda pede a renúncia do Presidente,
ingenuamente acreditando que reconstituirá a legalidade do processo através do
voto direto em um sistema eleitoral apodrecido. Entretanto, nenhuma delas
propõe nem apresenta seu projeto de nação. Há interesses, mas não há projetos
sociais articulados politicamente. Nesse cenário; de apagamento de luta social sólida,
de esparço reascenso de um efetivo movimento de massas que obrigue a classe
política organizada, os partidos, a discutir e debater uma verdadeira agenda
institucional para o país; não há militância, no sentido histórico político do
termo; mas tão somente mobilização, agitação, ativismo espontâneo mostrado e
vendido como espetáculo na mídia. E como substância dele, uma miríade de
discursos desencontrados, tartamudos, “militontos” sem bandeiras claras, sem
projetos evidenciados, sem mesmo saber pelo que se está lutando.
Texto publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 07/06/2017 (sem alterações)
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/economia-politica/noticia/2017/06/militontos-9810405.html
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Santa Maria - RS, Brasil
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Moral e política
O
que devemos esperar de um político portador de mandato público, eleito pelo
voto da população civil? Que ele seja honesto? Obviamente não! Essa é uma
condição prévia, indispensável a qualquer agente público. Deles devemos esperar
que desempenhem com competência o mandato político de que são portadores e que
representem politicamente a agenda pública com a qual se comprometeram. O
professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Paulo Netto,
lembra que quando colocamos a moralidade no centro do debate político, como
regulador das ações políticas, o resultado é sempre a vitória das forças
conservadoras e reacionárias, do conservadorismo ou do reacionarismo político.
Vejamos
a alguns exemplos: A política de imigração brasileira do final do século XIX
intentava fazer o que a política de Estado denominou de “higienização moral” do
povo brasileiro. Era um política racista e criminosa proporcionada pelo Estado.
Outro exemplo é a organização estadunidense Klu Klux Klan, que pregava o
nacionalismo branco e cujo jornal se chamava “Good Citizen”, isso é “cidadãos
de bem”. Era uma organização racista, fascista, xenófoba e deplorável,
escondida sob uma fachada moralmente honorável.
Em1954,
quando as movimentações políticas culminaram com o suicídio de Getúlio Vargas, as
forças de oposição e a grande imprensa bradavam: “sob o Catete há um mar de
lama”; necessário aqui lembrar que não houve comprovação de corrupção contra o
governo de Getúlio no período em que ocupou a presidência eleito pelo voto
popular.
Em
junho de 1964, Costa e Silva formulou o pedido de cassação de Juscelino e
suspendia seus direitos políticos por dez anos, sob acusação de corrupção e de
enriquecimento ilícito; quando na verdade o que os militares temiam era a
popularidade do ex-presidente e providenciaram sua saída da cena política.
Também em 1964, um movimento conservador que consistiu numa série de “marchas",
organizadas principalmente por setores do clero e por entidades femininas em
resposta ao comício realizado no Rio de Janeiro em 13 de março do mesmo ano,
durante o qual o então presidente João Goulart anunciou seu programa de
reformas de base. Este movimento congregou segmentos da classe média, temerosos
do "perigo comunista" e o risco moral que ele representava. O
resultado foi a cassação de Jango sob acusação de articular com essas “forças
do mal”, os comunistas. Derrubado em um golpe covarde e sórdido.
Com
isto quero demonstrar que a questão moral não pode nem deve nunca ser o mote da
ação política. No Brasil, historicamente, isto sempre serviu a direita
conservadora do status quo e
reacionária às forças que visavam à sublevação da ordem burguesa exploradora.
Mas há uma outra razão, talvez a principal; é a de que ela sempre significou um
mote falso, sob o qual (ou os quais), verdadeiramente se escondiam as reais
motivações para tal ações, sempre muito menos nobres e publicáveis.
A
partir disso, deve-se crer que não é a moralidade que deve gerir ou que deva
determinar o parâmetro do debate político; lembro também que quando o Partido
dos Trabalhadores chegou ao governo, em 2003, buscava significar a vitória do
bem contra o mal, o triunfo da moralidade e da ética. No entanto, e
contraditoriamente, empunhava uma bandeira que historicamente sempre servira
contra a marcha dos setores mais pobres. Sempre foi uma bandeira burguesa. Todos
vimos no que se transformou!
O
Mensalão ocorreu durante o governo Lula, todos sabemos. Entretanto não foi
exclusividade sua, mas sim, a gramática política de toda história republicana
do Brasil. Devemos também nos perguntar quanto custou a campanha da re-eleição
ao governo Fernando Henrique! Devemos buscar entender como transcorreu o
tráfico e influências durante a chamada “privataria tucana” no anos 1990 e
início dos anos 2000. Convém lembrar que o mensalão veio à tona na época pelas
mãos de um aliado da base do governo, o Deputado Roberto Jéferson, arrogando-se
parecer um paladino da moral, ao ponto de parecer estar acima da lei. O Presidente,
à época, agiu como se não soubesse de nada. Ambas são práticas condenáveis mas
não novas em nosso país. Quem tem boa memória lembrará que a prática do
mensalão teve início bem antes, em Minas Gerais, sob o governo de Eduardo Azeredo
do PSDB.
No
julgamento do Mensalão, o Ministro Joaquim Barbosa, aparecia como o “rei da
moralidade”, é claro que esta é uma seara polêmica, mas não resta dúvidas de
que em sua atuação atropelou sólidas normas jurídicas do país. Há juristas
sérios dispostos a defender que Barbosa lançou mão de práticas judiciais e
valores normativos no mínimo discutíveis. No entanto, contra corrupção, em nome
do “bem” todos acharam honorável, irrepreensível. O resultado mais imediato a
este evidente arrepio aos direitos individuais, ocorreu entre estes dois
últimos anos e poucas vozes se levantam contra eles. Na atual gramática
jurídica, em todas as instâncias, prende-se antes para provar a culpa depois,
suprime-se a condição básica do direito, que é levar em conta a inocência
prévia, sua primordial presunção.
Dentro
destas considerações um juiz bem barbeado vem atropelando sistematicamente os
direitos civis e os direitos políticos, enquanto a população aplaude, lota
auditórios para ouvi-lo. Acreditam, ingenuamente, que desta vez gente da elite
vai para a cadeia. Pensam que não é mais como antes, onde, no Brasil, só se
prendiam pessoas integrantes do grupo dos “três pês” (pobres pretos e
prostitutas). Quantos de nós acredita que os executivos da Odebrecht ficarão
presos? Quantos de nós acredita que devolverão valores desviados? Basta olhar
para o trato que receberam os dois fundadores do escritório de advocacia
Mossack Fonseca, envolvido no escândalo “Panama Papers” e parceiro das
Organizações Globo, presos em um dia e soltos no outro; mostrando a
seletividade e o atropelo jurídico da justiça brasileira, genuflexa frente ao
mercado e ao capital neoliberal, que, em nome da moral, acredita estar acima da
lei.
Assim,
fica claro que não é possível entender a atual situação jurídico política se
não olharmos para todo este cenário. A política não reflete uma luta do bem
contra o mal, mas um complexo jogo de forças mediado por interesses de toda
ordem. O que deve pautar as lutas políticas são objetivos claros em relação à
política econômica, o papel e a função do Estado diante da mediação de forças;
a quem servem e a quem representam os grandes sistemas de informação e
comunicação, a grande mídia corporativa.
Talvez
agora possamos desconfiar um pouco dos muito “bem intencionados”, defensores
dos direitos dos trabalhadores, da “família”, da moral e dos “bons costumes”.
Daqueles que parecem comprometidos com os ideais do “povo brasileiro”: uma
abstração tão vazia quanto falsa; esta sim, uma verdadeira utopia. Talvez
devamos sim dar mais atenção àqueles que, buscaram impedir golpes legais, porém
ilegítimos; que aparecem destacadamente na mídia quando são acusados e modestamente
quando são absolvidos.
De
fato, o que a direita brasileira conservadora; encoberta pelo véu da moral
burguesa e visceralmente ligada ao grande capital; traz agora, em suas reformas
trabalhistas e previdenciárias, é uma restauração neoliberal, herdada de Thatcher,
Reagan e Kohl; legitimada intelectualmente como “ciência”, quando na verdade
significa um conhecimento servil, deletério e nefasto para qualquer democracia.
Entretanto, faz sentido para justificar moralmente o aniquilamento dos pobres pelos
ricos. Produziu-se dentro dessa ordem neoliberal uma série de políticas sociais
compensatórias para contrapesar o desmonte do estado de bem estar social,
criando na população a sensação de viver dentro de uma grande sociedade justa e
igualitária. Privatização, desregulamentação e terceirização em nome de uma
nobreza moral, justificadas pelo discurso de que o estado não supre o ônus
tributário e previdenciário.
Não
existe imoralidade maior do que defender que a solução para o Brasil é o
desmonte do Estado nacional, da legislação trabalhista, da redução do Estado
brasileiro a uma condição mínima, sob a falsa justificativa de que esta
dimensão mínima promoveria uma redução dos custos tributários, securitários e
previdenciários. E ainda alegando, mentirosamente, que, com isso, entraríamos
na excelência do livre mercado. E mais, que este “livre mercado” teria
construído sozinho, por onde quer que tenha ocorrido, uma tal sociedade melhor.
Quanta nobreza de propósitos, falsamente, se atribui ao dito “livre mercado”!
Em
nenhuma das suas dimensões, o dito “progresso” humano a uma sociedade mais
justa e igualitária pode ser explicado pelo laissez
faire, pelo individualismo, pela competição exangue, pelo expontaneísmo do
mercado, a mercê de suas forças. Ressalva-se aqui, que o mercado e a iniciativa
privadas tem um papel na sociedade, são importantíssimos e centrais para o desenvolvimento
social. Entretanto, o mercado deixado ao seu próprio sabor, guiado pelos seus
próprios ventos, tende, pela sua própria natureza, distorcer-se, deformar-se.
Livre, tenderá ao monopólio, ao oligopólio, à concentração, à exploração
inumana do trabalho, à acumulação, à depredação do meio ambiente. Essa série de
razões, nos levam a perceber que para que o mercado funcione, é preciso uma
entidade, democrática, transparente e pública; controlada socialmente pelo
conjunto da população, ou pelas suas maiorias, asseguradas as expressões das
minorias na sua devida proporcionalidade. Toda vez que se verificou o dito
“progresso” econômico e social sempre foi fruto de uma convergência estratégica
entre Estados empoderados, mercados, e uma sociedade civil convergente, em
torno de objetivos constituídos democraticamente.
O
mercado, a justiça e a economia, em uma democracia, são uma questão política. E
o que deve pautar a luta política é quem deve financiar, de que forma, e a que
custo deve ocorrer o financiamento público, a justiça, a educação e a saúde; a
seguridade e a previdência social. Não se trata de bem ou mal, mas de dever ou
poder. A política representativa da democracia burguesa deve ser desvelada e
fazer transparecer suas verdadeiras financiadoras. A justiça, e sobretudo a
classe política portadora de mandatos não devem ser nem parecer os paladinos da
moral, e muito menos desejar estar acima da lei; mas cumprir sua função pública
de representar, defender os interesses de quem de fato deveriam ser o
representante.
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terça-feira, 16 de maio de 2017
Pauta Abuso Jornal Bento Gonçalves
1. Como a sociologia
entende esse fenômeno?
A sociologia, como uma ciência social,
busca compreender as causas e razões sociais desse fenômeno. A violência contra
crianças é apenas (infelizmente) mais um tipo de violência marcante em nossa
sociedade. Não é possível pensar este fenômeno descolado da realidade concreta
do qual ele emerge. Alcoolismo, desemprego, desestruturação da esfera doméstica
(não gosto do termo “família”, acho que mais complica do que elucida), ascensão
de valores como força, virilidade. O abuso de autoridade do adulto sobre as
crianças também é encontrado em outras esferas da vida social; nas polícias,
nas escolas, na política, no judiciário, que atropela princípios jurídicos....
Dessa forma, o fenômeno “abuso” é uma constante na vida social brasileira.
Obviamente, uma face visível e cruel é o que denominamos como violência
infantil. Lembro que a Lei do Ventre Livre, foi uma lei abolicionista,
promulgada em 1871 (há apenas 146 anos) e considerava livre todos os filhos de
mulher escravas nascidos a partir desta. Ressalto que como seus pais
continuavam escravos (a abolição legal só ocorreu em 1888), a lei estabelecia
duas possibilidades para as crianças que nasciam livres. Poderiam ficar aos
cuidados dos senhores até os 21 anos de idade ou entregues ao governo. O
primeiro caso foi o mais comum e beneficiava os senhores que poderiam usar e
desfrutar do corpo e do trabalho destas crianças e jovens “livres”. O abuso já
foi, portanto, institucional e legal em nossa sociedade.
2. Vocês acreditam que houve uma mudança nesse cenário nos últimos anos? Se sim, pra melhor ou pior?
O fato de os casos de
violência doméstica e entre eles o abuso infantil, terem-se tornado um fenômeno
público, de comunicação obrigatória quando detectada e um caso de saúde
pública; fizeram com que esse fenômeno ganhasse maior publicidade e
visibilidade. É possível mesmo que crianças e jovens, expostos a este tipo de
violência, há um tempo, não identificassem que estavam sofrendo algum tipo de
violência. Com a visibilidade adquirida pelo fenômeno, aqueles que dela são
vítimas passaram a se ver nessa condição. Dessa forma, embora os casos de
violência possam ter recrudescido ou até mesmo ganhado nova dimensão, é
possível crer que sua visibilidade parece ser a maior responsável pelo aparente
aumento percentual. Dito de forma mais direta, não se pode saber com precisão
se os casos aumentaram, mas é certo que as vítimas estão mais encorajadas a
denunciar. Quando um jovem ou criança ligar para o nº da denúncia, saberá que
do outro lado da linha haverá alguém disposto e preparado a lhe ouvir e acreditar
no seu relato. Finalizando, não creio que os casos tenham diminuído, mas há
possibilidades de um acolhimento mais imediato e preparado para as vítimas.
Vivemos em uma sociedade violenta em sua
essência. Mesmo antes da chegada dos europeus, a guerra, a violência era
central nas relações entre os diferentes grupos que compunham as sociedades tribais
(as matrizes nativas indígenas). Entretanto, em nosso projeto de nação, na
construção do imaginário social de uma nação independente era importante erigir
o mito de um “país abençoado por deus e bonito por natureza”. Uma utopia falsa.
Historicamente, como povo, como população, somos, inversamente, uma país
“esquecido por deus” e “violento por natureza”. A violência, dessa forma, está
em nosso “dna social”, na nossa construção identitária, étnica. Negamos isso, é
claro. Através da linguagem, buscamos sempre, atenuar esta violência. Chamamos
verdadeiros crimes de trânsito de “acidente”, guerras civis de “revoltas” ou de
“levantes”, exploração cruel de trabalho assalariado de “colaboração”, golpes
políticos de “impeachment”, veneno agrotóxico de “defensivo agrícola”, e assim
por diante... Praticamos violência não só contra crianças, mas contra todos os
vulneráveis em nossa sociedade: velhos (que chamamos suavemente de idosos),
contra deficientes físicos, contra doentes, contra mulheres, contra negros.... nossa
violência é endêmica, histórica. Conheço a realidade concreta da escola, mas já
li sobre situações semelhantes na saúde, na literatura da psicologia. Velhos,
crianças e doentes não denunciam as violências que sofrem temendo ser expostos
a mais, e mais cruéis violências. Fecha-se aí um ciclo vicioso de mais e mais
violência. Creio que seja, dessa forma, a razão pela qual somos uma sociedade
violenta, e as crianças como parte desta sociedade, vulnerável que é, sofre
severamente essa violência.
4. Como é possível essa criança viver em sociedade após um fato destes ter ocorrido?
Toda situação de abuso é
uma situação de trauma. Este é um crime de determinação social mas vivido
individualmente, solitariamente. Acredito que quem está mais preparado para pensar
esta questão seja alguém da psicologia. Sociologicamente pode-se pensar em
criar às vítimas situações de acolhimento e proteção. É preciso proporcionar à
criança ou ao jovem vítima, situação de apoio de psicólogos, professores,
assistentes sociais; técnica e pedagogicamente preparados para lidar com estas
situações.
5. O Sr acredita que é possível reverter esse cenário para que daqui alguns anos isso não aconteça mais?
Não creio que isso se
resolva de forma tão rápida ou imediata. A violência em nossa sociedade não é
algo circunstancial, mas estrutural. Sendo assim, essa é uma situação que não
se resolve em anos, ou uma década; mas em um espaço temporal bem mais alargado.
Uma sociedade se renova e se atualiza a cada nova geração, algo em torno de 20
a 25 anos. Cada nova geração nasce, cresce, é educada e aprende novos preceitos
legais diferentes dos das anteriores. É a isso que denominamos como
transformações sociais. Daqui algumas décadas possivelmente vivamos em um tempo
onde justiça social seja um valor do qual que ninguém mais duvide, que nós
cumpramos as leis de trânsito, que haja equidade entre homens e mulheres, que não
mais acreditemos em diferenças raciais, e que não sejamos mais capazes de
abusar física e psicologicamente de crianças, velhos e doentes.
pauta jornalista Laura Gross
http://www.jornalsemanario.com.br/noticia/abuso-sexual-infantil-bento-ja-registra-17-casos-em-2017
http://www.jornalsemanario.com.br/noticia/abuso-sexual-infantil-bento-ja-registra-17-casos-em-2017
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quarta-feira, 19 de abril de 2017
Masculinidade hegemônica
Nos
últimos dias, acompanhamos dois eventos que nos levam a pensar sobre as
relações entre homens e mulheres, entre o que entendemos como “feminino” e
“masculino” em nossa sociedade. O primeiro deles envolveu o ator José Mayer, ao
assediar a figurinista Susllem Tonani nas dependências da Rede Globo, e o
outro, nos estúdios do Programa “Big Brother Brasil”, quando o participante
Marcos, usando de sua força física, encurralou em um canto da Casa a colega de
programa Emilly obrigando-a a ouvir os seus brados. O que os dois casos tem em
comum? O que nos dizem sobre nossas relações cotidianas? O que dizem sobre nós,
como sociedade?
Vivemos
em um mundo onde a masculinidade, é a forma social dominante. É importante
lembrar que esta masculinidade é algo que está para além de “ser homem”, uma
vez que nem todos os homens são, por assim dizer, “masculinos”. Ela é uma forma
social, um padrão, uma referência. A prova disso é o tanto que é “masculino” o
mundo que nos cerca. A linguagem é um exemplo: “alunos” refere-se a todos,
“alunas” somente às meninas. A religião predominante em nosso país,
pretensamente laico, é uma religião masculina. Seu profeta é um homem, filho de
um deus masculino, cujo representante na terra é um homem (o Papa), cercado de
homens com poderes deliberativos (os cardeais) e representado em milhares de
localidades por homens que podem professar sua palavra: os padres. Outro
exemplo é a política. Basta observar a proporção de deputados federais,
estaduais, vereadores, ministros. São majoritariamente homens. Raríssimos são
os casos de mulheres que ocupam cargos de governo e gestão pelo mundo. Mesmo em
lugares e instâncias em que o feminino tem ampliado seu acesso e seus espaços,
ainda carecem de dinâmicas que propiciem sua ação e circulação. Ou seja, é um
mundo onde a masculinidade é hegemônica.
Essa
hegemonia, essa dominação, essa preponderância de tudo que é masculino sobre
toda a sociedade possui raízes profundas e históricas. Não se dá de maneira
clara e aberta, de forma fácil de se identificar. Essa preponderância masculina
que coloniza o imaginário de toda a sociedade se realiza de formas indiretas e
pouco perceptíveis, mas nem por isso deixam de reproduzir toda dinâmica de
exclusão e violência de que são capazes. A estas dinâmicas o sociólogo Pierre
Bourdieu denominava de violência simbólica. Afirmava ele que a
construção das identidades femininas teriam se pautado na interiorização pelas
mulheres das normas enunciadas pelos discursos masculinos; o que corresponderia
a uma violência simbólica que supõe a adesão dos dominados às categorias que
embasam sua dominação.
A
socióloga Adrianne Rich traz outro exemplo para pensar a questão da restrição
às mulheres à esfera pública e portanto, à autonomia. Ela concluiu que a roupa
feminina sempre foi socialmente pensada e desenhada de forma a restringir os
movimentos das mulheres. Com isso, o que está sendo restringido era a própria
liberdade feminina, suas possibilidades de ação, evitando assim, ao fim e ao
cabo, sua efetiva ação e participação na esfera pública. Roupas consideradas
como símbolos de beleza, de distinção e reserva, de sensualidade, de
delicadeza, e até mesmo de libertação, distinção e emancipação, configuram
contraditoriamente como o preço de sua própria exclusão e restrição. O véu e a
burca, os vestidos e as saias justas e curtas, os saltos altos, a maquiagem, o
batom, os decotes; importantes símbolos de distinção e identificação feminina,
são para Rich, decisivos limites para a ação feminina para além da vida privada.
Outra
autora que nos ajuda a pensar esta questão é a antropóloga estadunidense Rawyn
Connel. Ela entende que a forma hegemonicamente masculina, em especial
americana e europeia, solidamente ligadas a ideais patriarcais e sexistas,
consagram o que é masculino como lugar positivado de poder, virilidade, agressividade
e ausência de emoções. Essa forma de conceber as relações sociais espalha-se
pelo mundo através de um longo processo de globalização e colonização do
imaginário e das consciências, através do cinema, da televisão, da iconografia,
da música, e com isso naturalizam o fato de os homens usarem de violência para
alcançar seus objetivos.
Apenas
para ilustrar, tenho ouvido com assustadora frequência nas rádios e na
televisão uma música de uma dupla de rapazes que cantam em tom alegre e jocoso
a seguinte letra: “Eu vim acabar com essa
sua vidinha de balada. E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca. Vai
namorar comigo sim. Vai por mim igual nós dois não tem. Se reclamar ‘cê’ vai
casar também, com comunhão de bens. Seu coração é meu e o meu é seu. Também”.
Ou seja, é um homem que virá para acabar com a vida livre e alegre de uma
menina, aniquilar sua autonomia, obriga-la a namorar com ele, convencê-la “na
marra” de que ele é o seu melhor par “romântico”; caso ela não aceite apenas um
fortuito namoro, ele a obrigará a casar-se com ele, apoderando-se dela, compartilhando
materialmente seus patrimônios. Modelo este de união matrimonial, em desuso
desde a Constituição de 1988. Fica evidente nesta letra um tipo de
relacionamento abusivo, assimétrico, opressor e machista.
Em
uma sociedade assim constituída configura-se o masculino como padrão social
hegemônico e protagonista, e o feminino como seu coadjuvante. Nesses termos,
pode-se compreender porque os homens se julgam no direito de investir contra
mulheres, assediá-las, dar de dedo na sua cara, como nos casos relatados no
início deste texto. Em uma sociedade que toma o masculino como norma dominante,
torna-se compreensível, mas nunca aceitável ou justificável o desejo de
controlar, possuir e aniquilar tudo que não possui o seu estatuto. Não são só
as mulheres que são vítimas, mas toda a sociedade. Seguramente são as meninas e
mulheres aquelas que sofrem psicológica e fisicamente a opressão mais imediata.
Mas também sofrem com a violência todas as formas de viver o gênero e a sexualidade
que não se enquadram no padrão binário e hegemônico de homem e mulher, de
masculino e feminino.
Por
tudo isso, pode-se compreender que quando um homem agride uma mulher, esta
agressão não significa uma ação isolada, pessoal, ocasional, circunstancial. Ela
é um ato socialmente determinado, conjuntural, estrutural. Quando um homem
assedia ou investe contra uma mulher ou qualquer outra representação feminina; no
ambiente de trabalho ou em casa, desde os casos mais corriqueiros até os mais
graves, como feminicídio, lesbofobia, transfobia; todos eles são crimes de
conotação política, e devem ser tratados como uma questão pública, de uma
violência estrutural e cruel, chancelada por uma sociedade misógina e
hegemonicamente masculina.
Publicado na Coluna Sociedade do Jornal Diário de Santa Maria - 19/04/2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/noticia/2017/04/masculinidade-hegemonica-9775481.html
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