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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

La Grève

Ao longo dos séculos 18 e 19, o “Porto de la Grève”, situado às margens do rio Sena, tornou-se o coração comercial de Paris. Formou-se em seu entorno um grande mercado por onde chegavam bebidas, grãos, feno, madeira, fazendo deste lugar um dos mais populares daqueles tempos. Tinha esse nome pois ficava à frente de uma praça chamada "Place de Grève". “Grève”, em francês, quer dizer lugar plano, pedregoso ou arenoso situado às margens do mar ou de um curso de água.
Com o tempo a praça passou a abrigar também muitos operários, que ao amanhecer, reuniam-se à espera de trabalho. Eram no geral pessoas precarizadas pelo crescente desemprego. É desse contexto social que a expressão “greve” remete a trabalhadores paralisados em sua atividade laboral. Ainda no Medievo, a "Place de Grève" servira para torturas e execuções públicas; foi nela também que pela primeira vez em 1792 a guilhotina foi acionada.
Estar hoje “em greve” significa, portanto, presentificar uma história perversa. Os dramas sociais vividos na "Place de Grève" só podem ser compreendidos pelos dramas do nosso tempo.  Ir “à greve” hoje é resistir ao Projeto de Lei do Senado 409/2016 que teve parecer favorável neste mês pela Comissão da casa e pode virar lei. Ele põe fim à Lei 11.738 que regula o Piso Nacional do magistério. Permitirá que a União, Estados e Municípios possam reduzir os percentuais de correção dos salários na Educação.

O senador Dalírio Beber (PSDB/SC), autor do Projeto, perversamente culpa os professores pelos gastos públicos enquanto atende às ordens da classe empresarial e do sistema financeiro. Ignora os juros da dívida pública pagos pelos Governos, verdadeiro ralo por onde escoa o dinheiro público. Pelo seu Projeto, os professores estarão sujeitos a reajustes dos salários pelo menor índice possível. Diante disso, a única atitude digna e legítima é ocupar o terreno árduo de uma greve; ou se sujeitar à guilhotina de receber seu salário em parcelas. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sobre ovos e socos

Nos últimos dias, muito se tem debatido sobre a agressão sofrida pela professora Marcia Friggi dentro da escola em que trabalha no município de Indaial, no Vale do Itajaí, que teve seu rosto dilacerado e por ela mesma exposto em suas redes sociais. A postagem denuncia a violência e também escancara a misoginia e estupidez que caracterizam nossos tempos bárbaros.
Em postagens anteriores, a professora Márcia aplaudia o arremesso de ovos ao prefeito de São Paulo no início do mês em Salvador. Para muitos, os socos deferidos contra a professora equivalem-se aos ovos arremessados ao prefeito. É como se dissessem: “se ela apoiou uma agressão praticada não pode reclamar de uma agressão sofrida”.
Acontece que os dois eventos são radicalmente opostos. A agressão praticada contra João Dória é muito mais simbólica do que física. Jogar alimentos em figuras públicas é uma tradição política verificada desde a Roma Antiga, passando pelo Medievo e chegando até nossos tempos. Os Ingleses do século 19 costumavam jogar ovos, tomates, tortas, farinha e outros alimentos em políticos. É muito mais uma forma de escracho de teor moral do que um achaque que vise à degradação física.
Dessa forma, não se pode igualar as duas formas de agressão. Os socos deferidos covarde e cruelmente contra uma professora mulher por um aluno homem, embora um menino, demonstram tanto a fragilidade da figura feminina em uma sociedade misógina, quanto a degradação histórica da educação como mero produto sujeito às normas do mercado. Ao contrário, os ovos jogados no prefeito homem, rico empresário, rodeado de assessores e empoderado pelo cargo que ocupa, são um protesto simbólico.
Os hematomas no rosto da fragilizada professora Marcia e o terno importado sujo de ovo do “prefake” engomado expressam as complexas e radicais assimetrias de uma sociedade desigual, que muitos não entendem e ingenuamente pensam que sejam a mesma coisa!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 30 de agosto de 2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/geral-policia/noticia/2017/08/sobre-ovos-e-socos-9883436.html

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Greve dos professores estaduais - Jornal Diário de Santa Maria

Participação na reportagem sobre a greve dos professores estaduais do Jornal Diário de Santa Maria dia 05 de agosto de 2017