quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Batendo água"


“Batendo água”.

Ao observar os shows de e César Oliveira e Rogério Melo “O campo”, e Luiz Marenco “Identidade”, na EXPOFEIRA de Santa Maria 2008, quando da minha realização de field-work para a dissertação, atribuí muita importância a esses eventos, na medida em que são os grandes ícones da expressão da música gaúcha atualmente. Luiz Marenco foi ganhador do Prêmio Sharp de Música nos anos noventa, e a dupla venceu o mesmo prêmio (agora com o nome de Prêmio Tim de Música) em 2007. Tais premiação lhes conferem reconhecimento para além dos limites da música regional.
Os shows foram realizados dias 11 e 12 de outubro, dentro da 41ª Exposição Agropecuária de Santa Maria, dentro do Centro de Eventos da UFSM. O público, na maioria jovens universitários, lotou o espaço de um campo de futebol para assistí-los.
Em determinado momento do show do dia 11 de outubro, Luiz Marenco exclama “de vez em quando eu vou pra fora encher os olhos de campo”. Através das letras e da construção do cenário, os artistas invocam suas “identidades” e suas “raízes” no campo.

Um sul de verdade campeia em meus olhos, de bota e bombacha, montado a capricho.
(...)
É o Rio Grande gauchada amiga, de bota e bombacha tapeando o sombreiro, dobrando os pelegos tapados de terra! É um quebra-costela de atorar ao meio! É o sul mais campeiro que temos na vida! É a nossa porfia de prosear no galpão!
(Mauro Moraes e Luiz Marenco. Álbum “De Bota e Bombacha”, de Luiz Marenco e José Cláudio Machado).


A cena do campo, descrita na letra da música, bem como a leitura feita da identidade gaúcha, por parte de quem a escreveu, me parece muito apropriada à identidade do gaúcho nos dias atuais. Mauro Moraes, através da voz de Luiz Marenco, descreve “um sul de verdade”, passando como um filme diante dos olhos dos gaúchos de hoje. Esse gaúcho “de bota e bambacha, montado a capricho” se apresenta projetado diante dos olhos, através da imaginação de quem ouve a música. Ao final do show, entrevistei Marenco em seu camarim. Pilchado em tons de cinza, aspecto rústico de um peão, com um grande chapéu à cabeça, barba e cabelos longos, contrastavam com com a voz terna e gestos suaves de um artista. Perguntei-lhe o que o inspirava e como era “encher os olhos de campo”?

"Vou matar um pouco a saudades. Carregar os filhos, essas coisas.
Tchê, acredito eu, por ser espírita, que somos um meio, uma comunicação para algo, e no momento que estamos neste nível, de bem com as coisas, de bem com a vida, de bem com os filhos, de bem com a família, de bem com os amigos, enfim de bem com a vida, estamos ao alcance do nosso próprio interior e de demonstrar este sentimento.
Eu gosto muito de ir para fora, e quando vou, sempre me acontece isso, me surgem as melodias. É lá na campanha, naquele meio, naquele universo que eu amo tanto. Não que eu não ame a cidade, mas a campanha me faz brotar, me faz abrir este caminho para surgir algo. O universo do campo é maravilho, é tão calmo. Lá não se vê tanta maldade como se vê por aqui diariamente."


A música que encerrou seu show, foi também a mais aguardada. “Batendo água” foi cantada em coro por quase todo o público presente. Era visível a emoção a que o público foi levado durante a sua execução. As músicas e suas letras, de um modo geral, não se referem a acontecimentos épicos, não são narrativas de feitos e de fatos heróicos. Não falam do passado. Os tempos verbais são, via de regra, em sua maioria conjugados no tempo presente. As músicas celebram o “hoje”, o “agora”. O cotidiano. Não celebram o extraordinário, mas sim, o mais corriqueiro acontecimento. A cena descrita em “Batendo água” não é uma narrativa, mas a descrição de uma quadro. Também não de uma fotografia, pois há nela movimento e som. A música descreve uma cena que poderia transcorrer em poucos segundos, e dessa forma, poderia ser “vivida” através da imaginação de quem a ouve.

Meu poncho emponcha lonjuras. Batendo água.
E as águas que eu trago nele eram pra mim.
Asas de noite em meus ombros. Sobrando casa
Longe "das casa" ombreada a barro e capim.
Faz tempo que eu não emalo meu poncho inteiro,
nem abro as asas da noite pra um sol de abril.
Faz muitos dias que eu venho bancando o tino
das quatro patas do zaino. Pechando o frio.
Troca um compasso de orelhas a cada pisada.
No mesmo tranco. Da várzea que se encharcou.
Topa nas abas sombreiras, que em outros ventos
guentaram as chuvas de agosto que Deus mandou.
Meu zaino garrou da noite o céu escuro,
e tudo o que a noite escuta é seu clarim.
De patas batendo n'água depois da várzea.
Freio e rosetas de esporas no mesmo trin.
Falta distância de pago e sobra cavalo.
Na mesma ronda de campo que o céu deságua.
Quem tem um rumo de rancho pras quatro patas
bota seu mundo na estrada batendo água.
Porque se a estrada me cobra, pago seu preço
e desabrigo o caminho pra o meu sustento
Mesmo que o mundo desabe num tempo feio,
sei o que as asas do poncho trazem por dentro.
(Luiz Marenco)

É a imagem de um homem à cavalo, a trote, debaixo de chuva. Vestindo um poncho encharcado, onde as águas retidas por ele representam a sua experiência. O poncho é a sua casa e é carregada sobre os seus ombros. Ao erguer os braços, forma a imagem de um grande pássaro com suas asas abertas. Enfrenta o frio sem parar há dias. A música é ritmada em um chamamé1, compasso melódico que sugere o ritmo de um bater de cascos de um cavalo ao trote. A expressão “tocando orelhas”, quer dizer desconfiado, atento. O animal mantém uma das orelhas posta à frente enquanto coloca a outra à lateral. Trocando-as a cada instante. Na música, o animal “troca um compasso de orelhas a cada pisada”, melodicamente sobre a vegetação úmida. A relação entre a melodia, a letra da música e a cena descrita atinge seu ponto máximo nos versos “Meu Zaino garrou da noite o céu escuro, e tudo que a noite escuta é seu clarim. De patas batendo n'água depois da várzea. Freio e rosetas de esporas no mesmo trin.” O cavalo é de um tom de cor escura e se confunde com a noite. O único som audível é seu bater de cascos. A barbela do freio2 produz o som estridente de metal atritando com metal, ao mesmo tempo, ao mesmo compasso, e da mesma forma que fazem as rosetas das esporas3. O público é envolvido pelo ritmo musical que acompanha o trotar de um cavalo e simultaneamente, através da letra, são produzidos a imagem e os sons da cena descrita.
Essa produção de imagens rápidas e instantâneas, estreitamente vinculadas ao cotidiano do gaúcho campeiro, é uma das estratégias bem sucedidas das músicas que ganham o interesse do público. Há todo um vocabulário específico utilizado nas letras, e que não será entendido por um público que não tenha, mesmo que minimamente, contato com o universo rural. A música só fará sentido se for verossímil. Se parecer-se com a verdade. Não que todos ali tenham vivido uma situação semelhante àquela, mas todos ali são capazes de compreender o significado daquilo, de realmente sentir-se parte daquele universo.

3 comentários:

  1. ESSA MÚSICA BATENDO ÁGUA É REALMENTE MUITO BONITA , É UMA POESIA !!!

    RUBENS MÁRCIO

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  2. Estou descobrindo o Canto Nativo de Luiz Marenco e seus mestres Noel Guarany e Jayme Braun. Fico inebriado com suas letras e busco o significados das palavras pois são muito peculiares.

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  3. "Troca um compasso de orelhas a cada pisada.
    No mesmo tranco. Da várzea que se encharcou.
    Topa nas abas sombreiras, que em outros ventos
    guentaram as chuvas de agosto que Deus mandou."

    Essa música nos transporta para dentro da cena que ela cria, para uns trata-se de um experiência revivida, para outros, que minimamente conhecem o campo, trata-se de uma internalização da experiência vivida pelo peão, pelo homem campeiro. Para ambos, "batendo água" é um daqueles prazeres que a vida e a arte proporcionam, com uma carga de emoção típica das grandes obras.
    Obrigado, Marenco.

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