segunda-feira, 25 de março de 2019

Armas matam pessoas


Resultado de imagem para desarmamentoO grau de violência de uma sociedade está diretamente determinado pelo nível de desigualdade que a constitui. Em uma sociedade onde existe alta concentração da propriedade privada e, portanto, da renda, e sua consequente alta desigualdade social e econômica, implica níveis de violência que exorbitam na forma de violação de direitos, crime organizado, violência urbana e violência doméstica. Defender que violência se combate coma mais violência, ou armando as pessoas, significa não agir na raiz do problema, mas alimentar ainda mais um sistema em crise.
Pessoas armadas matam pessoas e aumentam o grau de violência, sobretudo em uma sociedade desigual. No brasil, por exemplo, por ano, mais de 40 mil pessoas são mortas por armas de fogo, número que coloca o País em primeiro lugar do ranking mundial de mortalidade por armas publicado pelo Global Burden Disease, órgão da Organização Mundial da Saúde que pesquisa as causas de morte pelo mundo.
O atual governo brasileiro defende e fomenta o uso de armas de fogo. É uma posição homicida! Os meios de comunicação, diante disso, buscam mostrar o atual quadro, como um cenário de polarização. Criam a ideia de uma simetria entre dois lados idênticos e opostos. Em um deles, ideais historicamente burgueses como a inclusão, a diversidade, a tolerância e a ascensão das lutas populares; de outro, ideais supremascistas como a xenofobia, a intolerância às lutas sociais e pautas identitárias, e o mais extremista e perigoso deles, pois recrudesce todas a outras, o culto às armas. Faz isso equivocadamente, como se a violência fosse uma questão meramente individual e não uma questão social, de segurança pública e coletiva, no quadro de uma sociedade injusta e desigual.
Não há polarização. Na tentativa de parecer isenta e imparcial a mídia hegemônica apresenta um cenário de falsa simetria. Só um dos lados cultua a violência explícita e ensina criancinhas em palanque público a imitar, inocentemente, armas de fogo com as mãos! O contraste não é de esquerda contra direita, conservadores contra progressistas, mas concretamente de civilização contra a barbárie.
Armas matam pessoas e colocar a questão armamentista como um lema de governo mostra o grau de violência e insanidade sob o qual a sociedade brasileira está sujeita. Mas isso não mais nos surpreende. Vivemos num lugar em que o comandante da Nação declarou publicamente em 1999 que, para resolver os problemas do País, só “matando uns trinta mil”, as dez mortes trágicas na escola de Suzano nos levam a concluir que ainda faltam 29.990 pessoas. Só resta torcer para que não sejamos uma delas!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, edição de 20 de março de 2019.
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/armas-matam-pessoas-1.2130320

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Marionete sem cordas

Thomas Mann publicou em 1924 um dos romances mais influentes da literatura mundial do século XX. “A montanha mágica” inspira-se no tempo que o autor acompanhou, ainda jovem, o tratamento de sua esposa Katharina, em um sanatório, em Davos, nos Alpes suíços. É exatamente nesse mesmo lugar que nos finais de janeiro de cada ano personalidades de todo o mundo se reúnem para debater as questões globais mais prementes. É lá que está nesta semana o nosso presidente da república. A saída do país nesse momento tem suas razões.
Desde que assumiu o cargo, há menos de um mês, muito tem-se falado das ações do novo governo. Não parece haver precedentes de um início de gestão tão insólito e tumultuado. Mas é apenas aparência, removendo um pouco as gavetas da nossa memória encontramos, na história recente, inícios de governos muito parecidos com este que está em curso. Em “Brasil: uma biografia” a historiadora Heloísa Starling e a antropóloga Lilia Schwarcz contam que logo que assumiu a presidência, Jânio deixou claro que se saía melhor disputando votos que administrando o país. Foi um mestre nas patacoadas! Criou uniforme para o serviço público, em estilo safári, e mandou publicar no Diário Oficial. Tinha a cor bege e logo foi apelidado de “pijânio”. Vetou corridas de cavalo e rinhas de galo e para completar colocou dois burros para pastar a grama verde do Palácio da Alvorada. Como se não bastasse, preocupado com o sol forte do cerrado brasiliense, mandou colocar chapéus de palha nos animais!
Collor é outro exemplo: embora também folclórico sua marca foi o impacto. Depois de uma campanha suja apoiada pelo empresariado e pala mídia, assumiu, e, no dia seguinte reuniu a equipe econômica e anunciou à imprensa um severo pacote de reformas. Bloqueava, da noite para o dia, o dinheiro das contas correntes, aplicações financeiras e cadernetas de poupança. Em campanha, alardeou que seriam os adversários que fariam isso. Era um mentiroso, como se soube depois. Congelou salários, reajustou tarifas de serviços públicos, e instaurou pânico entre a população. Não foi um começo tranquilo!
Já o atual governo não deixou por menos. Começou tão insólito quanto tumultuado. O presidente age como um autômato, uma marionete sem cordas no centro de um picadeiro em que o elenco em sua volta não é senão um esboço de sua própria mediocridade, mas é preciso considera-lo com seriedade. Ele se parece muito com Jânio e com Collor: compartilham o mesmo senso de política como espetáculo, embora por ela demonstrem desprezo; desdém pelas instituições, mas sem elas é inviável a democracia. Nenhum dos dois primeiros concluiu seu mandato. E nesta semana, assim que retornar de Davos, o chefe da nação terá muito a explicar a respeito de seu início de governo, sob pena de ter o mesmo desfecho. Talvez perceba, em tempo, que o sanatório que inspirou Thomas Mann nos Alpes é a metáfora exata do que seu governo transformou o país.

Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 23/01/2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/marionete-sem-cordas-1.2119271

sábado, 19 de janeiro de 2019

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sábado, 12 de janeiro de 2019

Sobre o "lixo marxista" (texto do profº Vladimir Safatle)

Imagem relacionadaFolha de São Paulo / 05 de janeiro de 2019

Vladimir Safatle (sempre ele), na minha modesta opinião, o mais lúcido intelectual brasileiro hoje

Nós, o lixo marxista

Tomou posse o primeiro governo eleito de extrema-direita do Brasil. Com ele, não há negociação alguma possível.  E nem ele procura alguma forma de negociação com aqueles que não comungam seus credos, que não louvam seus torturadores e que não acham que “é duro ser patrão no Brasil”. Não há razão alguma para se enganar e acreditar em certa normalidade: a lógica que irá imperar daqui para frente é a da guerra. Pois isto não é um governo, isto é um ataque. 
Já o discurso do sr. Jair Messias foi claro. Questões econômicas e sociais estiveram em segundo plano enquanto as duas palavras mais citadas eram “deus” e “ideologia”. Deus estava lá, ao que parece, para nos livrar da “crise moral” em que a república brasileira se encontra. Isto, diga-se de passagem, há de se conceder ao sr. Jair Messias: vivemos  mesmo uma crise moral profunda. Ela está instalada no cerne do governo brasileiro. Pois como justificar um governo cujo ministro da justiça ganhou seu cargo como prêmio por ter colocado o candidato mais popular a presidente nas grades e pavimentado a estrada para a vitória de seu atual chefe? Como descrever um governo que já nasce com ministros indiciados e um réu confesso que se escarnece da população brasileira ao afirmar “já ter se acertado com Deus” a respeito de seus malfeitos? Como descrever um presidente cujo motorista foi pego em operações financeiras absolutamente suspeitas e se negado duas vezes a comparecer à justiça sem sequer ser objeto de condução coercitiva? 
Mas o destaque evidente é a mais nova luta do estado brasileiro contra a “ideologia”. Enquanto uma de suas primeiras medidas governamentais foi diminuir o valor previsto do aumento do salário mínimo, mostrando assim seu desprezo pela sorte das classes economicamente mais vulneráveis, o sr. Jair Messias convocava seus acólitos à grande cruzada nacional para lutar contra o socialismo, retirar das escolas o lixo marxista e impedir que a bandeira brasileira seja pintada de vermelho. 
Alguns podem achar tudo isto parte de um delírio que normalmente acomete  leitores de Olavo de Carvalho. Mas gostaria de dizer que, de certa forma, o atual ocupante da presidência tem razão. Sua sobrevivência depende da luta contínua contra a única alternativa que nunca foi tentada neste país, que nunca se acomodou nem às regressões autoritárias que nos assolam, nem aos arranjos populistas que marcaram nossa história. Pois ninguém aqui tentou expropriar meios de produção para entregá-los à autogestão dos próprios trabalhadores, ninguém procurou desconstituir o Estado para passar suas atribuições a conselhos populares, aprofundando a democracia direta, e nem levou ao extremo necessário a luta pelo igualitarismo econômico e social que permite à todos os sujeitos exercerem sua liberdade sem serem servos da miséria e da espoliação econômica. 
Ou seja, a verdadeira latência da sociedade brasileira que poderia emergir em situações de crise como esta é um socialismo real e sem medo de dizer seu nome. A sociedade brasileira tem o direito de conhece-lo, de pensar a seu respeito, de tentar aquilo que ela nunca viu sequer a sombra. Ela tem direito de inventa-lo a partir da crítica e da autocrítica do passado. Mas contra isto é necessário calar todos os que não se contentam com a vida tal como ela nos é imposta por essa associação macabra de militares, pastores, latifundiários, financistas, banqueiros, iluminados por deus, escroques que tomaram de assalto o governo e que sempre estiveram dando as cartas, de forma direta ou indireta.
Assim, quando Jair Messias fala que irá lutar contra o lixo marxista nas escolas, nas artes, nas universidades, entendam que esta luta será a mais importante de seu governo, a única condição de sua sobrevivência. Pois ele sabe de onde pode vir seu fim depois de ficar evidente o tipo de catástrofe econômica e social para a qual ele está nos levando.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Sociedade do veneno

Daqui a alguns tempos, quando as próximas gerações buscarem uma expressão para nos caracterizar, entre as tantas denominações possíveis, possivelmente nos chamarão de sociedade do veneno! Somos a sociedade que mais ingere substâncias venenosas, pela via da alimentação, na história da humanidade. Mas o que torna isso possível? A transformação genética dos alimentos.
Há alguns anos ouvi uma história que narrava sobre o gosto dos japoneses pelo tomate. Eles apreciam tomates túrgidos, suculentos, enrubescidos e sem manchas. Entretanto, devido ao frio que chegava intempestivamente às lavouras tomateiras japonesas, seus produtos pereciam. Como eles resolveram isso? Transpondo para o tomate um gene do bacalhau que tornava sua pele resistente ao congelamento. Assim, os tomates japoneses, mesmo expostos ao frio extremo, ao gelo, permaneciam perfeitos. Essa fábula é uma explicação lúdica e muito ilustrativa da transgenia.
Na agricultura a explicação não é tão cândida assim. Um produto é modificado geneticamente para resistir única e exclusivamente a um determinado agente químico. Por outros termos, modifica-se geneticamente um alimento para que apenas ele, e nenhum outro, resista à ação do veneno agrícola. Por isso em uma lavoura de milho, arroz, soja, trigo nada, além da semente transgênica, sobrevive; nenhuma gramínea, nenhuma minhoca, nenhuma formiga, nada! É a morte completa da microflora e da microfauna, do solo e da vida. É um deserto verde, apenas sobrevivem os grãos resistentes geneticamente ao veneno.
Aquilo que os defensores dessas substâncias chamam de agroquímicos, defensivos agrícolas, chamamos de veneno mesmo. Cada brasileiro consome mais de 5 litros de agrotóxicos, herbicidas, pesticidas ao ano. O lobby do agronegócio, sobre a produção de agroquímicos, fármacos e sementes geneticamente modificadas tem força suficiente para manter esse ciclo intocável. Sua bancada no Congresso soma às dezenas, enquanto que os representantes da agricultura familiar, orgânica, se resumem às unidades. Enquanto se mantiver essa lógica perversa, continuaremos sendo a sociedade que mais consome veneno no mundo. Nesse contexto, não nos restará outra nomenclatura, a não ser a de sociedade do veneno, é só se servir, ele está à mesa!

Publicado no dia 25 de julho de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/sociedade-do-veneno-1.2083522

Sociedade do medo

Em 1986 os brasileiros elegeram um conjunto de parlamentares para redigir e promulgar um novo Texto Constitucional. Essa tarefa foi cumprida! Nos dias de hoje voltar a ele pode nos ajudar a compreender não só o que pensávamos àquela época, como explicar porque vivemos tempos tão assustadores.
No final dos anos 1980 a sociedade brasileira saía de uma ditadura empresarial-militar que havia durado mais de duas décadas. Nesse tempo, que não foi homogêneo, ocorreram toda uma série de restrições de liberdades civis e políticas. O governo dos militares orientados pelos interesses da elite econômica, subserviente ao capital internacional, se conduziu à revelia de qualquer princípio de direitos fundamentais, mesmo aqueles referentes à cidadania burguesa.
Não se tinha, na maior parte do tempo, direito a voto, organização sindical ou partidária, era verdadeiramente um regime de exceção. Prendia-se, torturava-se, por um tempo houve restrição até mesmo de habeas corpus, pessoas desapareciam injustificadamente, apareciam mortas em situações suspeitas, impedindo-se qualquer tipo de contestação de laudos. Pois foi a sociedade desse contexto histórico que escolheu aquela Assembleia Constituinte. Aterrorizada pelo medo, esta Assembleia fez brotar um Texto que refletia seus temores. Seus valores mais evidentes são os direitos e as liberdades.
Com o tempo cresceram a cidadania e a democracia e aquele Texto Constitucional começou-nos a parecer libertário demais. Na aparência protege criminosos, privilegia contraventores e promove a impunidade. Em essência, a constituição cidadã promulgada em 1988 assegura uma série de garantias sociais fundamentais para a vida em sociedade. São a segurança de cada um e de todos, como também das instituições de que parâmetros legais possuem limites bem claros e definidos.
É por isso que hoje cada ataque a ela evidencia o quanto estamos voltando à exceção. Reformas espúrias, julgamentos midiáticos, condenações arbitrárias são duros golpes à cidadania. Vivíamos em uma sociedade do medo e esse medo, como vimos e como tornamos a ver agora, ainda se justifica.

Publicado no dia 18 de abril de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/sociedade-do-medo-1.2062627

Democracia, guerra e voto

O historiador Fernando Braudel dizia que não é observando as espumas da superfície que se conhece a potência do rio caudaloso que às produz de forma tão espetacular. Essa é uma metáfora que o autor usa para demonstrar que não é tomando os acontecimentos pela sua aparência superficial que podemos compreender as forças ocultas que os promovem, suas reais e essenciais determinações e razões de ser.

Observados à sua superficialidade, os eventos políticos no Brasil desde os últimos anos nos aparecem como um conjunto de eventos fortuitos e espontâneos, ocasionais e necessários a uma depuração moral da sociedade, que combinados fortalecem o poder democrático desta sociedade, dando estabilidade social e econômica às suas instituições e garantindo uma aparente normalidade ao seu funcionamento.

Apenas aparência! Em realidade o conjunto de circunstâncias em que estamos imersos é o que o jornalista brasileiro Pepe Escobar chama da guerra híbrida. Nela, não há tiros, tanques ou soldados propriamente ditos. É um tipo de guerra não convencional que golpeia lentamente e a longo prazo; suave, não dura, não militar, sem intervenções expressas e com manipulação significativa dos meios de comunicação de massa, controle político, financeiro e intimamente alinhada com o sistema judiciário do país. Sofisticada mesmo. Algo sutil, porém muito eficiente!
Nesta sociedade em guerra, em vez da farda, a toga como timão de um amplo processo pensado de fora para dentro, que nos aparece, inversamente, com ares de normalidade. Caso o resultado das eleições seja diferente daquele que os timoneiros esperam não hesitarão em impor outra vez sua agenda com apoio da mídia hegemônica, com Supremo, com tudo!

Vivemos tempos sombrios e obscuros, incertos e temerários, esperando que nossos votos borbulhantes que formam muita espuma, tenham a força de agir sobre a caudalosa e convulsa realidade brasileira. Neste cenário de guerra, o voto é apenas um estilingue diante do poder bélico gigantesco, discreto e devastador da cidadania que parecemos ter nesta aparente democracia brasileira.

Publicado no dia 03 de outubro de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/democracia-guerra-e-voto-1.2098856