Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de abril de 2019

Bullying não é humor


Muito se tem falado nos últimos dias sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. O debate foi reaceso depois de duas condenações do jornalista Danilo Gentili (pelo crime de injúria contra a deputada federal Maria do Rosário e por ofensa e danos morais ao também deputado federal Marcelo Freixo). Ora, o debate não deveria ser exatamente esse. Uma democracia estará tanto mais viva quanto mais estiver garantida a liberdade de expressão, seja ela nas mais variadas formas de manifestação e uma delas é o humor. Não é essa a questão.
A palavra humor deriva do latim “umor”, que significa fluido ou seiva, por outros termos, o líquido essencial que alimenta os seres vivos. O “H” aderiu ao termo por uma associação com “húmus”, que em latim significa “terra”. Ou seja, “humor”, na origem, remete à ideia de terra molhada, rica, que alimentará a vida. Humor é alimento da vida, nunca pode, portanto, ser limitado ou criminalizado!
Como expressão artística e política o humor está ligado a formas de resistência. É como chargistas, cartunistas, caricaturistas, pintores, desenhistas, escultores, roteiristas, atores, compositores, historicamente desafiaram, fazendo graça, o poder e os poderosos: chefes de Estado, líderes autoritários, ícones da mídia e da economia. Fazendo-os parecer ridículos e patéticos. O humor é uma arma cirúrgica contra os opressores. Por essência, ele é também um poder, porém, contra hegemônico.
Voltando então ao caso do jornalista, convém lembrar que ele acumula em seu currículo, além de ofensas e injúrias, outros ataques a pessoas ligadas a grupos historicamente vilipendiados. Em 2012, pelo Twitter, ofereceu bananas a um internauta negro; este mês, enquanto a parlamentar Tábata Amaral falava em defesa de milhões de trabalhadores, durante a oitiva do Ministro da Economia na Câmara, twittou “a mina é tão gorda que acha que até os ministros devem ser temperados”.
Isso não é humor, é agressão; não alimenta a alma, não fortalece os que precisam resistir, não inspira a superação das nossas limitações ou fealdades. Não tem graça. Pelo contrário, no mundo de hoje, patético ou ridículo é ver graça nisso. Só os covardes o fazem.
O verdadeiro nome disso é Bullying, repito, Bullying!!! Humor, é tirar onda com o canalha que faz Bullying, com o valentão, com o fortão!! Fazer piada com a coleguinha gordinha, a magricela; o coleguinha negro, o coleguinha com roupa puída, o de óculos, o orelhudo, o dentuço, não é humor, é Bullying; não é liberdade de expressão, é agressão e covardia, e é assim que deve ser tratado pela justiça.
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, dia 17 de abril de 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/bullying-n%C3%A3o-%C3%A9-humor-1.2136320

segunda-feira, 25 de março de 2019

Armas matam pessoas


Resultado de imagem para desarmamentoO grau de violência de uma sociedade está diretamente determinado pelo nível de desigualdade que a constitui. Em uma sociedade onde existe alta concentração da propriedade privada e, portanto, da renda, e sua consequente alta desigualdade social e econômica, implica níveis de violência que exorbitam na forma de violação de direitos, crime organizado, violência urbana e violência doméstica. Defender que violência se combate coma mais violência, ou armando as pessoas, significa não agir na raiz do problema, mas alimentar ainda mais um sistema em crise.
Pessoas armadas matam pessoas e aumentam o grau de violência, sobretudo em uma sociedade desigual. No brasil, por exemplo, por ano, mais de 40 mil pessoas são mortas por armas de fogo, número que coloca o País em primeiro lugar do ranking mundial de mortalidade por armas publicado pelo Global Burden Disease, órgão da Organização Mundial da Saúde que pesquisa as causas de morte pelo mundo.
O atual governo brasileiro defende e fomenta o uso de armas de fogo. É uma posição homicida! Os meios de comunicação, diante disso, buscam mostrar o atual quadro, como um cenário de polarização. Criam a ideia de uma simetria entre dois lados idênticos e opostos. Em um deles, ideais historicamente burgueses como a inclusão, a diversidade, a tolerância e a ascensão das lutas populares; de outro, ideais supremascistas como a xenofobia, a intolerância às lutas sociais e pautas identitárias, e o mais extremista e perigoso deles, pois recrudesce todas a outras, o culto às armas. Faz isso equivocadamente, como se a violência fosse uma questão meramente individual e não uma questão social, de segurança pública e coletiva, no quadro de uma sociedade injusta e desigual.
Não há polarização. Na tentativa de parecer isenta e imparcial a mídia hegemônica apresenta um cenário de falsa simetria. Só um dos lados cultua a violência explícita e ensina criancinhas em palanque público a imitar, inocentemente, armas de fogo com as mãos! O contraste não é de esquerda contra direita, conservadores contra progressistas, mas concretamente de civilização contra a barbárie.
Armas matam pessoas e colocar a questão armamentista como um lema de governo mostra o grau de violência e insanidade sob o qual a sociedade brasileira está sujeita. Mas isso não mais nos surpreende. Vivemos num lugar em que o comandante da Nação declarou publicamente em 1999 que, para resolver os problemas do País, só “matando uns trinta mil”, as dez mortes trágicas na escola de Suzano nos levam a concluir que ainda faltam 29.990 pessoas. Só resta torcer para que não sejamos uma delas!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, edição de 20 de março de 2019.
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/armas-matam-pessoas-1.2130320