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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A experiência dos livros

Há autores que lemos tarde demais
Há autores que lemos muito cedo
Há livros que lemos fora da hora
Há outros que lemos na hora certa
Há os que gostaríamos de ter lido
Os que não precisávamos
Há os que merecem uma consulta ou uma breve releitura
Há os que abandonamos, os que nos acompanham por toda vida
Enfim, livros❗
São como experiências, tanto necessárias quanto perecíveis....
Não mais que qualquer outra experiência da vida, que para o mundo a nossa volta, seguem a mesma lógica:
Há as que vivemos tarde demais.....Resultado de imagem para livro estante biblioteca

sábado, 12 de janeiro de 2019

Sobre o "lixo marxista" (texto do profº Vladimir Safatle)

Imagem relacionadaFolha de São Paulo / 05 de janeiro de 2019

Vladimir Safatle (sempre ele), na minha modesta opinião, o mais lúcido intelectual brasileiro hoje

Nós, o lixo marxista

Tomou posse o primeiro governo eleito de extrema-direita do Brasil. Com ele, não há negociação alguma possível.  E nem ele procura alguma forma de negociação com aqueles que não comungam seus credos, que não louvam seus torturadores e que não acham que “é duro ser patrão no Brasil”. Não há razão alguma para se enganar e acreditar em certa normalidade: a lógica que irá imperar daqui para frente é a da guerra. Pois isto não é um governo, isto é um ataque. 
Já o discurso do sr. Jair Messias foi claro. Questões econômicas e sociais estiveram em segundo plano enquanto as duas palavras mais citadas eram “deus” e “ideologia”. Deus estava lá, ao que parece, para nos livrar da “crise moral” em que a república brasileira se encontra. Isto, diga-se de passagem, há de se conceder ao sr. Jair Messias: vivemos  mesmo uma crise moral profunda. Ela está instalada no cerne do governo brasileiro. Pois como justificar um governo cujo ministro da justiça ganhou seu cargo como prêmio por ter colocado o candidato mais popular a presidente nas grades e pavimentado a estrada para a vitória de seu atual chefe? Como descrever um governo que já nasce com ministros indiciados e um réu confesso que se escarnece da população brasileira ao afirmar “já ter se acertado com Deus” a respeito de seus malfeitos? Como descrever um presidente cujo motorista foi pego em operações financeiras absolutamente suspeitas e se negado duas vezes a comparecer à justiça sem sequer ser objeto de condução coercitiva? 
Mas o destaque evidente é a mais nova luta do estado brasileiro contra a “ideologia”. Enquanto uma de suas primeiras medidas governamentais foi diminuir o valor previsto do aumento do salário mínimo, mostrando assim seu desprezo pela sorte das classes economicamente mais vulneráveis, o sr. Jair Messias convocava seus acólitos à grande cruzada nacional para lutar contra o socialismo, retirar das escolas o lixo marxista e impedir que a bandeira brasileira seja pintada de vermelho. 
Alguns podem achar tudo isto parte de um delírio que normalmente acomete  leitores de Olavo de Carvalho. Mas gostaria de dizer que, de certa forma, o atual ocupante da presidência tem razão. Sua sobrevivência depende da luta contínua contra a única alternativa que nunca foi tentada neste país, que nunca se acomodou nem às regressões autoritárias que nos assolam, nem aos arranjos populistas que marcaram nossa história. Pois ninguém aqui tentou expropriar meios de produção para entregá-los à autogestão dos próprios trabalhadores, ninguém procurou desconstituir o Estado para passar suas atribuições a conselhos populares, aprofundando a democracia direta, e nem levou ao extremo necessário a luta pelo igualitarismo econômico e social que permite à todos os sujeitos exercerem sua liberdade sem serem servos da miséria e da espoliação econômica. 
Ou seja, a verdadeira latência da sociedade brasileira que poderia emergir em situações de crise como esta é um socialismo real e sem medo de dizer seu nome. A sociedade brasileira tem o direito de conhece-lo, de pensar a seu respeito, de tentar aquilo que ela nunca viu sequer a sombra. Ela tem direito de inventa-lo a partir da crítica e da autocrítica do passado. Mas contra isto é necessário calar todos os que não se contentam com a vida tal como ela nos é imposta por essa associação macabra de militares, pastores, latifundiários, financistas, banqueiros, iluminados por deus, escroques que tomaram de assalto o governo e que sempre estiveram dando as cartas, de forma direta ou indireta.
Assim, quando Jair Messias fala que irá lutar contra o lixo marxista nas escolas, nas artes, nas universidades, entendam que esta luta será a mais importante de seu governo, a única condição de sua sobrevivência. Pois ele sabe de onde pode vir seu fim depois de ficar evidente o tipo de catástrofe econômica e social para a qual ele está nos levando.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Sociedade do veneno

Daqui a alguns tempos, quando as próximas gerações buscarem uma expressão para nos caracterizar, entre as tantas denominações possíveis, possivelmente nos chamarão de sociedade do veneno! Somos a sociedade que mais ingere substâncias venenosas, pela via da alimentação, na história da humanidade. Mas o que torna isso possível? A transformação genética dos alimentos.
Há alguns anos ouvi uma história que narrava sobre o gosto dos japoneses pelo tomate. Eles apreciam tomates túrgidos, suculentos, enrubescidos e sem manchas. Entretanto, devido ao frio que chegava intempestivamente às lavouras tomateiras japonesas, seus produtos pereciam. Como eles resolveram isso? Transpondo para o tomate um gene do bacalhau que tornava sua pele resistente ao congelamento. Assim, os tomates japoneses, mesmo expostos ao frio extremo, ao gelo, permaneciam perfeitos. Essa fábula é uma explicação lúdica e muito ilustrativa da transgenia.
Na agricultura a explicação não é tão cândida assim. Um produto é modificado geneticamente para resistir única e exclusivamente a um determinado agente químico. Por outros termos, modifica-se geneticamente um alimento para que apenas ele, e nenhum outro, resista à ação do veneno agrícola. Por isso em uma lavoura de milho, arroz, soja, trigo nada, além da semente transgênica, sobrevive; nenhuma gramínea, nenhuma minhoca, nenhuma formiga, nada! É a morte completa da microflora e da microfauna, do solo e da vida. É um deserto verde, apenas sobrevivem os grãos resistentes geneticamente ao veneno.
Aquilo que os defensores dessas substâncias chamam de agroquímicos, defensivos agrícolas, chamamos de veneno mesmo. Cada brasileiro consome mais de 5 litros de agrotóxicos, herbicidas, pesticidas ao ano. O lobby do agronegócio, sobre a produção de agroquímicos, fármacos e sementes geneticamente modificadas tem força suficiente para manter esse ciclo intocável. Sua bancada no Congresso soma às dezenas, enquanto que os representantes da agricultura familiar, orgânica, se resumem às unidades. Enquanto se mantiver essa lógica perversa, continuaremos sendo a sociedade que mais consome veneno no mundo. Nesse contexto, não nos restará outra nomenclatura, a não ser a de sociedade do veneno, é só se servir, ele está à mesa!

Publicado no dia 25 de julho de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/sociedade-do-veneno-1.2083522

Sociedade do medo

Em 1986 os brasileiros elegeram um conjunto de parlamentares para redigir e promulgar um novo Texto Constitucional. Essa tarefa foi cumprida! Nos dias de hoje voltar a ele pode nos ajudar a compreender não só o que pensávamos àquela época, como explicar porque vivemos tempos tão assustadores.
No final dos anos 1980 a sociedade brasileira saía de uma ditadura empresarial-militar que havia durado mais de duas décadas. Nesse tempo, que não foi homogêneo, ocorreram toda uma série de restrições de liberdades civis e políticas. O governo dos militares orientados pelos interesses da elite econômica, subserviente ao capital internacional, se conduziu à revelia de qualquer princípio de direitos fundamentais, mesmo aqueles referentes à cidadania burguesa.
Não se tinha, na maior parte do tempo, direito a voto, organização sindical ou partidária, era verdadeiramente um regime de exceção. Prendia-se, torturava-se, por um tempo houve restrição até mesmo de habeas corpus, pessoas desapareciam injustificadamente, apareciam mortas em situações suspeitas, impedindo-se qualquer tipo de contestação de laudos. Pois foi a sociedade desse contexto histórico que escolheu aquela Assembleia Constituinte. Aterrorizada pelo medo, esta Assembleia fez brotar um Texto que refletia seus temores. Seus valores mais evidentes são os direitos e as liberdades.
Com o tempo cresceram a cidadania e a democracia e aquele Texto Constitucional começou-nos a parecer libertário demais. Na aparência protege criminosos, privilegia contraventores e promove a impunidade. Em essência, a constituição cidadã promulgada em 1988 assegura uma série de garantias sociais fundamentais para a vida em sociedade. São a segurança de cada um e de todos, como também das instituições de que parâmetros legais possuem limites bem claros e definidos.
É por isso que hoje cada ataque a ela evidencia o quanto estamos voltando à exceção. Reformas espúrias, julgamentos midiáticos, condenações arbitrárias são duros golpes à cidadania. Vivíamos em uma sociedade do medo e esse medo, como vimos e como tornamos a ver agora, ainda se justifica.

Publicado no dia 18 de abril de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/sociedade-do-medo-1.2062627

Democracia, guerra e voto

O historiador Fernando Braudel dizia que não é observando as espumas da superfície que se conhece a potência do rio caudaloso que às produz de forma tão espetacular. Essa é uma metáfora que o autor usa para demonstrar que não é tomando os acontecimentos pela sua aparência superficial que podemos compreender as forças ocultas que os promovem, suas reais e essenciais determinações e razões de ser.

Observados à sua superficialidade, os eventos políticos no Brasil desde os últimos anos nos aparecem como um conjunto de eventos fortuitos e espontâneos, ocasionais e necessários a uma depuração moral da sociedade, que combinados fortalecem o poder democrático desta sociedade, dando estabilidade social e econômica às suas instituições e garantindo uma aparente normalidade ao seu funcionamento.

Apenas aparência! Em realidade o conjunto de circunstâncias em que estamos imersos é o que o jornalista brasileiro Pepe Escobar chama da guerra híbrida. Nela, não há tiros, tanques ou soldados propriamente ditos. É um tipo de guerra não convencional que golpeia lentamente e a longo prazo; suave, não dura, não militar, sem intervenções expressas e com manipulação significativa dos meios de comunicação de massa, controle político, financeiro e intimamente alinhada com o sistema judiciário do país. Sofisticada mesmo. Algo sutil, porém muito eficiente!
Nesta sociedade em guerra, em vez da farda, a toga como timão de um amplo processo pensado de fora para dentro, que nos aparece, inversamente, com ares de normalidade. Caso o resultado das eleições seja diferente daquele que os timoneiros esperam não hesitarão em impor outra vez sua agenda com apoio da mídia hegemônica, com Supremo, com tudo!

Vivemos tempos sombrios e obscuros, incertos e temerários, esperando que nossos votos borbulhantes que formam muita espuma, tenham a força de agir sobre a caudalosa e convulsa realidade brasileira. Neste cenário de guerra, o voto é apenas um estilingue diante do poder bélico gigantesco, discreto e devastador da cidadania que parecemos ter nesta aparente democracia brasileira.

Publicado no dia 03 de outubro de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/democracia-guerra-e-voto-1.2098856

Ele soa como nós


No último domingo elegemos pelo voto direto, aquele que será o governante máximo da nação. Este governante, de acordo com a democracia representativa, é quem tem a função de expressar e dar voz à sociedade que o elegeu. Assim, ele sintetiza e condensa tudo que somos ou pensamos ser, nossas formas de agir, pensar e sentir, como indivíduos ou como sociedade. No limite, deve soar como um de nós!
Somos racistas, como podemos verificar no Atlas da Violência 2017. A população negra corresponde à maioria dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. No mesmo sentido, as pessoas negras são a maioria no sistema carcerário do país. Somos misóginos e a prova disso é que foi preciso criar leis de proteção específica às mulheres; a exemplo da Lei Maria da Penha, de 2006, que criminalizou a violência doméstica e a Lei 13.104/2015, que mostrou ser necessário tratar o feminicídio crime hediondo. Somos também homofóbicos, como mostram os dados do Grupo Gay da Bahia. Um ou uma LGBTs é morto ou morta a cada 19 horas no Brasil. É uma chacina diária pela peculiar condição de sua sexualidade não convencional.
Nosso trânsito é a expressão do quanto somos violentos, corruptos e agimos de forma persistente e contumaz ao arrepio da lei. Somos o quinto país em mortes no trânsito no mundo. Só no último ano foi perto de 50 mil mortes, 130 vidas por dia, equivale à queda de um Boeing por dia. Segundo a PRF as principais causas das mortes no último ano são falta de atenção, velocidade incompatível, ingestão de álcool, desobediência à sinalização, ultrapassagens indevidas. Ou seja, não respeitamos a nós nem aos outros, não damos valor nem à própria vida!
Portanto, de fato elegemos um sujeito e um projeto de país que é nosso próprio reflexo como sociedade. Nas palavras do historiador David Duke, ligado à organização supremacista estadunidense Ku Klux Klan, o nosso futuro chefe da nação soa como um deles, estadunidenses; mas isso porque ele não conhece a nossa sociedade brasileira; se conhecesse, então saberia que suas palavras também fazem muito sentido por aqui, pois ele soa, muito mais, como um de nós!


Publicado no dia 31 de outubro de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/ele-soa-como-n%C3%B3s-1.2104708

Nova Faixa Velha


A nova e ampliada Faixa Velha de Camobi se parece com um território sem lei! Transito nesse trecho da RS 509 há exatos 25 anos, desde antes dela apresentar os congestionamentos nos horários de maior fluxo, e não era assim. Agora, depois parcialmente duplicada, tenho notado que a velocidade dos carros parece sem controle e sem fiscalização.
Do ponto de vista do volume de tráfego, a duplicação da Faixa Velha já chega com um atraso de mais de uma década. A obra segue aos trancos, semi pronta em alguns trechos, totalmente parada em outros tantos e considerada finalizada em outros. Em quaisquer dos casos há pouquíssima sinalização, orientação para motoristas, sobretudo os de fora, e muita, muita ausência de fiscalização das regras de trânsito.
Na altura do Pé de Plátano, por exemplo, em qualquer um dos sentidos, a velocidade dos carros é inacreditável! A sensação que se tem é de estar completamente errado ao respeitar a velocidade limite para a via. Há no trecho uma placa de sinalização de 30 km/h.. Ela é inútil e apenas figurativa. Está ali como um monumento à nossa própria estupidez. Se alguém transitar por esse trecho nesta velocidade corre o risco de ser xingado ou ser achacado por uma disfonia de buzinas.
As faixas de segurança são outro problema. Foram pintadas há um tempo e já estão se apagando. Qualquer motorista que quiser cumprir a lei ou mesmo ser educado com os pedestres, parando antes das faixas, sabe do perigo que corre de sofrer uma colisão traseira, que não será um acidente, mas deliberadamente um crime.
Convém lembrar das dificuldades com que trabalha o Batalhão de Polícia Rodoviária que fiscaliza este trecho da rodovia. Equipamentos precários, salários defasados e parcelados, pouco contingente e poucas viaturas para tantos problemas, são valentes que realizam o melhor trabalho que conseguem.
Diante de tudo isso, do risco de trafegar em trechos tão arriscados, mal sinalizados, com pouca ou nenhuma fiscalização resta o temor de sofrer um acidente ou ser vítima de um crime de trânsito. O resultado é uma nova Faixa Velha parecendo-se com um território sem nenhum controle, cujo maior valor é permitir que se ande em alta velocidade, mas nenhuma segurança.


Publicado no dia 21 de fevereiro de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/nova-faixa-velha-1.2047710

Nos faltará inspiração


Viver sem conhecer o passado, é como caminhar no escuro. O passado pode servir como aprendizado, como exemplo e acima de tudo como inspiração. Aos lugares de inspiração os gregos denominavam mouseion, o “templo das musas”, mesma etimologia dos vocábulos música e museu, ou seja, aquilo que nos inspira.
Um museu não é um lugar de velharias nem um amontoado de coisas antigas, sem uso ou sem utilidade. Museu não é lugar de esquecimento, daquilo que não existe mais, do que não é importante. Ao contrário disso, um museu é justamente um lugar de preservação e culto daquilo que é mais precioso em uma sociedade. Sua história, suas memórias, seus registros científicos e tecnológicos, arqueológicos, etnográficos e artísticos. Sem eles nos faltará inspiração!
O incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, é a consequência mais evidente do nosso descaso com tudo aquilo que é patrimônio nosso. Temos dilapidado nosso patrimônio econômico, privatizando nossas empresas públicas; nosso patrimônio humano, terceirizando as relações de trabalho; e nosso patrimônio político público, retirando cada vez mais da esfera pública, as ruas, o embate político.
De tudo que vimos queimar ali, o crânio do fóssil humano mais antigo das Américas; cirurgicamente de uma mulher, Luzia, a verdadeira musa de templo em chamas; é a imagem mais nítida do que somos como sociedade. Ela era a chave mais preciosa para explicar nossas origens, nosso berço africano e sua diáspora pelo Planeta. Certamente sem ela, e o que ela simbolizava, nos faltará inspiração!
Momento trágico, sombrio e revelador. O que ardeu em chamas não foi somente o patrimônio histórico brasileiro, mas a nossa própria inspiração. Não foram somente 200 anos de história ou 20 milhões de peças que queimaram, mas a consciência histórica de 200 milhões de brasileiros. A uma sociedade que queima seus museus, apaga seu passado, só restará caminhar no escuro, reverenciando falsos mitos e heróis inglórios. É o que nos caberá, certamente por falta de inspiração.


Publicado no dia 05 de setembro de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/nos-faltar%C3%A1-inspira%C3%A7%C3%A3o-1.2092436

Direita sem vergonha


Uma sociedade avança em cidadania à medida em que assume claramente sólidos referenciais políticos que serão os mediadores para a vida coletiva. Mas isso é algo raro nas jovens democracias que passaram por processos de dominação. Eu mesmo sou de um tempo, anos setenta, em que as posições políticas à direita tinham vergonha de afirmar-se como direita; no máximo, afirmavam-se como moderados, ao centro.
No Brasil, ao final das duas décadas de ditadura militar empresarial, os posicionamentos políticos que apoiavam e davam sustentação moral àquele governo identificavam-se com princípios muito parecidos com os das sociais democracias europeias, negando-se como direita. Para usar uma expressão do jornalista Elio Gaspari, era uma direita “envergonhada” daquilo mesmo que defendia e praticava.
Depois de lá voltamos a flertar com a democracia e assistimos ao crescimento do partido político que elegeu duas vezes, democraticamente, em primeiro turno, um presidente da república. Era um partido nitidamente à direita, afeito às privatizações e às políticas neoliberais, mas que, inversamente, afirmava-se ao centro do espectro político. Era, portanto, uma direita também envergonhada de afirmar pública e abertamente os princípios que defendia.
Na última terça-feira, 20 de março, ao acompanhar a visita do ex-presidente Lula à UFSM, notei algo histórico e inédito no Brasil desde a “Marcha pela Liberdade”, de 1964, defendendo os militares e setores conservadores da sociedade. Ao assistir à grande mobilização, contrária à visita, em frente a Reitoria da Universidade, percebi que direita, mais uma vez, saiu do armário; e perdeu novamente a vergonha de afirmar-se como direita.
É lamentável, no entanto, que o faça, em grande número, promovendo milícias armadas ou apoiando um candidato tão abjeto, xenófobo, misógino, homofóbico e truculento. Viveremos, por tudo isso, um ano político eleitoral tenso. A esquerda bastante tímida e assustada, embora sólida e combativa; contra uma direita eufórica e entusiasmada, e, sobretudo, mais sem vergonha do que nunca de afirmar-se como tal.


Publicado no dia 21 de março de 2018 no Jornal Diário de Santa Maria
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/direita-sem-vergonha-1.2055967

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Patriotas ou patrioteiros?

Por duas vezes, na história do nosso país, assistimos à falsa construção de um inimigo perigoso, sempre com a finalidade de entregar as riquezas nacionais a interesses do grande capital. A primeira delas, o governo Getúlio forjou a ameaça comunista para justificar seu golpe de Estado; na segunda, os militares mais conservadores e entreguistas lideraram uma tomada de poder fundando seu discurso na mesma justificativa. Hoje passamos por um processo muito parecido, com a mesma retórica e a mesma finalidade, a de proteger a pátria, dos comunistas.
Segundo o jornalista Breno Altman, o crescimento da narrativa anticomunista já cresce desde alguns anos, é um problema estrutural da periferia do capital. As relações de trabalho nesses países estão assentadas numa brutal superexploração do trabalho. São sociedades que se construíram na base da escravidão e na pressão gigantesca contra o povo. As burguesias enriqueceram pagando salários baixíssimos, quase nenhum direito social, e com alta isenção fiscal e de impostos. Não suportam o discurso que as denuncia. Reagem com um discurso  fortemente reacionário, que explicitamente demonstra a dificuldade delas em conviver com os direitos dos trabalhadores e com a democracia.
A demonização agora escora-se sobre um partido. Quando ele surge, mesmo sem ser revolucionário ou radical; e propõe aumento progressivo de salário, em especial o salário mínimo; expande direitos sociais, serviços públicos, e vai melhorando as condições de vida de grandes massas do povo, ele ameaça medularmente essas elites.  Surge também criando barreiras à super-exploração do trabalho, a exemplo da lei do trabalho doméstico no Brasil. As elites deste país não suportam essas reformas, as veem como ameaçadoras. Elas podem até mesmo tolerá-las por um tempo, enquanto encontram alguma compensação, mas quando vem uma crise e essas compensações deixam de existir, as burguesias querem liquidar governos reformistas desse tipo, para que possam voltar à selvageria.

Nessas situações precisam criar uma imagem demoníaca desses governos. Elas recorrem então ao imaginário que elas próprias criaram no passado, que é taxar esses governos de comunistas, de corruptos e inimigos da pátria, Elas recorrem ao seu velho arsenal! Quem defende tudo isso, no entanto, não é nacionalista ou patriota, mas um entreguista patrioteiro. Patriota é defender, de fato, a soberania do povo, a valorização do trabalho, um país ativo e altivo e não uma sociedade explorada, genuflexa e subjugada aos interesses internacionais.

Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 28 de novembro de 2018
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/patriotas-ou-patrioteiros-1.2110176

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

La Grève

Ao longo dos séculos 18 e 19, o “Porto de la Grève”, situado às margens do rio Sena, tornou-se o coração comercial de Paris. Formou-se em seu entorno um grande mercado por onde chegavam bebidas, grãos, feno, madeira, fazendo deste lugar um dos mais populares daqueles tempos. Tinha esse nome pois ficava à frente de uma praça chamada "Place de Grève". “Grève”, em francês, quer dizer lugar plano, pedregoso ou arenoso situado às margens do mar ou de um curso de água.
Com o tempo a praça passou a abrigar também muitos operários, que ao amanhecer, reuniam-se à espera de trabalho. Eram no geral pessoas precarizadas pelo crescente desemprego. É desse contexto social que a expressão “greve” remete a trabalhadores paralisados em sua atividade laboral. Ainda no Medievo, a "Place de Grève" servira para torturas e execuções públicas; foi nela também que pela primeira vez em 1792 a guilhotina foi acionada.
Estar hoje “em greve” significa, portanto, presentificar uma história perversa. Os dramas sociais vividos na "Place de Grève" só podem ser compreendidos pelos dramas do nosso tempo.  Ir “à greve” hoje é resistir ao Projeto de Lei do Senado 409/2016 que teve parecer favorável neste mês pela Comissão da casa e pode virar lei. Ele põe fim à Lei 11.738 que regula o Piso Nacional do magistério. Permitirá que a União, Estados e Municípios possam reduzir os percentuais de correção dos salários na Educação.

O senador Dalírio Beber (PSDB/SC), autor do Projeto, perversamente culpa os professores pelos gastos públicos enquanto atende às ordens da classe empresarial e do sistema financeiro. Ignora os juros da dívida pública pagos pelos Governos, verdadeiro ralo por onde escoa o dinheiro público. Pelo seu Projeto, os professores estarão sujeitos a reajustes dos salários pelo menor índice possível. Diante disso, a única atitude digna e legítima é ocupar o terreno árduo de uma greve; ou se sujeitar à guilhotina de receber seu salário em parcelas. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A nitroglicerina de Marx

Dentro de alguns dias, na terceira semana deste mês de setembro se completarão 150 anos da publicação da maior obra de Teoria Social da contemporaneidade. Neste mesmo 2017 também é celebrado o sesquicentenário de uma invenção tanto engenhosa quanto explosiva. Enquanto Karl Marx concluía em Londres O Capital e enviava para sua publicação em Hamburgo, perto dali Alfred Nobel misturava nitroglicerina aos seus explosivos tornando a substância mais estável e segura de ser manipulada. Há 150 anos aparecia para o mundo, a clara possibilidade da implosão de todas as formas de exploração ou de explodir em chamas pela estupidez de seus exércitos.
É irônico pensar que o inventor da dinamite, uma substância destruidora, dê nome hoje a um prêmio dedicado à paz; é também irônico pensar que o criador de uma Teoria Social que mostrava aos homens as cadeias mais radicais de opressão seja pintado com tantos matizes enviesados. O certo é que nenhum dos dois pode ser culpado pelos destinos que se deram às suas obras. A dinamite contribuiu decisivamente para a civilização revolucionando a técnica da explosão de minas, a construção de túneis e estradas, mas também mudou a sorte das guerras, violentamente. O Capital, por sua vez, é a substância teórica necessária para a implosão de um sistema crítico, finito e esgotado que cada vez mais se arrasta para a barbárie; entretanto, muitas vezes, foi usado como sua justificativa.
A dinamite e O Capital parecem essencialmente opostos, mas não são. A capacidade explosiva da dinamite é diretamente proporcional à capacidade implosiva d’O Capital. A nitroglicerina de Marx, isto é, aquilo que acrescentou às teorias sociais que explicavam utopicamente as contradições da sociedade, é também o mesmo elemento que tornou sua teoria social a única capaz de implodir o bárbaro sistema social vigente. Demoramos um século e meio para perceber, mas nunca é tarde!

Esta data é apenas um ponto em uma longa trajetória que não é linear, mas ela própria dialética. Rara registrar este ponto o Grupo Kairós promove o Curso de Extensão abaixo disposto.
O Capital completo em http://marxismo21.org/150-anos-de-o-capital/
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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sobre ovos e socos

Nos últimos dias, muito se tem debatido sobre a agressão sofrida pela professora Marcia Friggi dentro da escola em que trabalha no município de Indaial, no Vale do Itajaí, que teve seu rosto dilacerado e por ela mesma exposto em suas redes sociais. A postagem denuncia a violência e também escancara a misoginia e estupidez que caracterizam nossos tempos bárbaros.
Em postagens anteriores, a professora Márcia aplaudia o arremesso de ovos ao prefeito de São Paulo no início do mês em Salvador. Para muitos, os socos deferidos contra a professora equivalem-se aos ovos arremessados ao prefeito. É como se dissessem: “se ela apoiou uma agressão praticada não pode reclamar de uma agressão sofrida”.
Acontece que os dois eventos são radicalmente opostos. A agressão praticada contra João Dória é muito mais simbólica do que física. Jogar alimentos em figuras públicas é uma tradição política verificada desde a Roma Antiga, passando pelo Medievo e chegando até nossos tempos. Os Ingleses do século 19 costumavam jogar ovos, tomates, tortas, farinha e outros alimentos em políticos. É muito mais uma forma de escracho de teor moral do que um achaque que vise à degradação física.
Dessa forma, não se pode igualar as duas formas de agressão. Os socos deferidos covarde e cruelmente contra uma professora mulher por um aluno homem, embora um menino, demonstram tanto a fragilidade da figura feminina em uma sociedade misógina, quanto a degradação histórica da educação como mero produto sujeito às normas do mercado. Ao contrário, os ovos jogados no prefeito homem, rico empresário, rodeado de assessores e empoderado pelo cargo que ocupa, são um protesto simbólico.
Os hematomas no rosto da fragilizada professora Marcia e o terno importado sujo de ovo do “prefake” engomado expressam as complexas e radicais assimetrias de uma sociedade desigual, que muitos não entendem e ingenuamente pensam que sejam a mesma coisa!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 30 de agosto de 2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/geral-policia/noticia/2017/08/sobre-ovos-e-socos-9883436.html

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Paula desmilitarização - Jornal Semanário

 Jornal Semanário - Bento Gonçalves - jornalista Nicholas Lyra

1.      Na semana passada, tivemos uma ação em Bento Gonçalves, em uma praça do Centro da cidade, que chamou a atenção. Na foto, diversas pessoas aparecem com as mãos pra cima, sendo revistados pela Brigada Militar, que alegou estar combatendo o tráfico de drogas, roubos a pedestres e assaltos ao comércio. No entanto, nada foi localizado nas revistas, e ninguém foi preso por nenhum crime. A linha entre combate a esses crimes e o cometimento de excessos, e até mesmo repressão da sociedade, é muito tênue?
Esse tipo de estratégia tem sido largamente utilizada pelo comando da Brigada. São feitas ações em locais de movimentado passeio público no sentido de impactar a opinião pública sobre ações preventivas da polícia. Se forem executadas a partir de um anterior e estratégico plano de inteligência, tendem a ter resultados muito satisfatórios; entretanto, da maneira como vêm sendo conduzido pela polícia militar, apenas demonstra o tanto que a corporação está enfraquecida, desesperadamente tentando “mostrar serviço” frente a uma população que cobra ações mais efetivas da polícia.
2.      Essas ações não acabam sendo mais para causar uma sensação de segurança na população, quando na verdade os problemas reais de segurança pública não estão sendo combatidos?
Concordo com a afirmação do início da pergunta. É uma tentativa de causar na opinião pública apenas uma sensação de segurança, mas não uma segurança efetiva. A pasta da segurança pública é de altíssimo orçamento e não está entre as prioridades do atual Governo. Investir em inteligência, incrementar planos de carreira, qualificar salários e treinamento, adquirir equipamentos (armamentos e de proteção) modernos e em condições efetivas de uso são de altíssimo custo. Essas seriam estratégias reais de qualificação da corporação e da segurança pública; porém, não está entre os interesses políticos do atual Governo, muito mais compromissado com interesses privados de sucatear e lucrar com o empobrecimento do setor público.
3.      As forças de segurança acabam, de certa maneira, atuando como uma espécie de instrumento de repressão do Estado, como que “institucionalizando” a violência?
As forças de segurança, em especial as militarizadas, são formas tradicionais de repressão política. São institucionalmente constituídas para tratar como caso de “polícia” o que na verdade são casos de “política”. Enredados em formas rançosas de disciplinas toscas, aplicam suas forças punitivas sobre gente comum; sobre manifestantes, grupos sindicalizados que lutam pela garantia de direitos sociais para toda a população. É muito triste assistir brigadianos defendendo um governo que parcela salários e descumpre a constituição, reduz direitos sociais e entrega o patrimônio público ao setor privado. Brigadianos e professores não estão de lados opostos, como aparece nos protestos; mas compartilham as mesmas dificuldades, o mesmo plano de saúde, o mesmo parcelamento dos seus salários.
4.      Quais os grupos são historicamente mais prejudicados por isso?
Os grupos mais enfraquecidos são justamente aqueles que possuem as pastas mais onerosas: segurança e educação. São orçamentos muito altos e categorias muito numerosas. Basta ver o enfraquecimento sindical dessas categorias. Estão despolitizados, desmobilizados, não conduzem a um efetivo enfrentamento político. Este governo penaliza mais severamente o Executivo, pois sabe muito bem o custo político de se indispor com o Judiciário e com o Legislativo. Categorias historicamente enfraquecidas e desarticuladas (professores, policiais civis, brigadianos) são os que já vem mais de perto sentindo os achaques da caneta de um Governador sem compromissos com suas pautas.
5.      Existem teóricos que afirmam que as formas e a cultura de repressão utilizadas pelas Polícias Militares, especialmente em países latino-americanos, ainda seriam heranças das ditaduras militares vividas nos continentes. O senhor concorda com essa afirmação?
De certa forma sim. Os países que nunca foram colônia ou livraram-se do imperialismo pelas próprias forças tendem a ver a militarização como uma forma de civismo público, de soberania nacional; seus corpos militares significam uma defesa da população civil, do patrimônio público, daquilo que pertence a toda população. Já entre países que foram colônias e que saíram dessa condição para a de submissos aos impérios industriais (América Central e Latina, África e parte da Ásia),a militarização tem outra conotação. Historicamente as forças militares sempre foram usadas para achacar a própria população civil. Proteger os governos sub imperiais das forças econômicas dominantes. Vou dar dois exemplos: o exército brasileiro nasceu pelas mãos imperiais que deu a Duque de Caxias a missão de demover a Balaiada no Maranhão. Os “balaios” eram gente comum, civil, cansada de ser explorada pelo governo imperial. Hoje, um bandido, assassino, facínora como Caxias dá nome a escolas. É como se judeus chamassem uma escola pública judia de “Escola Hitler”. Outro exemplo é a nossa própria Brigada Militar. Ela nasceu das forças governamentais interessadas em amassar militarmente as forças Farroupilhas, gente comum, população civil, que lutava contra um governo explorador. O mais inacreditável é que hoje, justamente os Piquetes das Brigadas Militares que abrem os desfiles Farroupilhas dos municípios. Ou seja, aqueles que abrem a celebração máxima da memória histórica farroupilha, são justamente os que foram criados para combater e assassinar bravos heróis farroupilhas. Dessa forma, em ex colônias e nações imperializadas (como as ditaduras militares da América do Sul), as forças militares não formas de defesa da soberania nacional, mas formas de opressão e achaques da própria população civil.
6.      A desmilitarização das polícias talvez fosse um caminho para diminuir esses excessos? É necessário um debate mais amplo sobre o tema?
Sim, é necessário que o debate seja aberto. Embora haja todos estes problemas decorrentes da forma militarizada de constituir as forças policiais, a mesma militarização é ainda uma forma de coesão e ordem de forças tão enfraquecidas. É preciso discutir questões mais profundas, como formas de financiamento público para setores tão importantes como a segurança, como é imperioso também discutir de forma pública e aberta os direitos público e civil que os corpos militares têm de se manifestar em uma democracia. Proibir um militar de fazer greve ainda é como retroceder na história a tempos em que a greve nem era um direito constitucional (1ª metade do século passado)
7.      Essas são as questões principais. Caso haja algum outro comentário a ser feito sobre o assunto, e que não foi perguntado, podes ficar a vontade para colocar. Mais uma vez, agradeço tua atenção e disponibilidade, e aguardo retorno.

Agradeço a oportunidade, at.te,

Da paróquia para o cartório

No último dia 30, o Parlamento alemão aprovou a legalização do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Foi uma vitória política de peso dos sociais democratas sobre os conservadores. Isso me levou a refletir sobre a legislação acerca do mesmo tema no Brasil. Por aqui, desde 2011, este tipo de “união” está chancelada pelo Supremo Tribunal Federal que reconheceu a “família homoafetiva”, conferindo aos casais homossexuais o direito à “união estável”.
Na Europa ocidental, a chamada “união civil homossexual” é amplamente reconhecida. Na América, o “matrimônio homossexual” é legítimo no Canadá; e nos Estados Unidos somente em 2015 a Suprema Corte legalizou este tipo de união para todos os americanos. Entre os latinos, além do Brasil, apenas seis países reconhecem algum tipo de “união” ou “casamento” entre pessoas do mesmo sexo.
O que chama a atenção, em todos os casos, é a confusão semântica trazida pela forma como se denominam estes tipos de uniões civis e sociedades conjugais. Tende-se a tratar como “coisas de natureza” noções de mundo que são socialmente construídas. O sociólogo Pierre Bourdieu, em “A dominação masculina”, alerta como isso é perigoso. O que é simbólico acaba sendo interpretado como sendo biológico ou inato. É ideológico porque quando se justifica algo biologicamente se está dizendo que não pode ser de outa maneira, e deve ser aceito acriticamente. 
No caso brasileiro isso é peculiar. A expressão “casamento” aparece na Constituição brasileira sete vezes; ele é o nome que nossa Carta Constitucional, em seu Artigo 226, dá à “sociedade conjugal”. O termo “casamento” está naturalizado em nosso Código Legal. Note-se que o termo “casamento” é uma nomenclatura religiosa e com isso carrega consigo uma forte carga conservadora de uma sociedade patriarcal. No texto “Brasil: uma biografia”, a antropóloga Lilia Schwarcz narra que até a vinda do movimento cartorário para o Brasil, concomitante à vinda da Família Real em 1808, os registros civis (nascimentos, óbitos, matrimônios) eram feitos nas paróquias das igrejas católicas. Depois disso, migraram delas para os cartórios de registros civis. O prejuízo social se deu em razão da confusão semântica que esta transição implicou. Nos cartórios, o que as paróquias chamavam de “casamento”, deveria denominar-se “Sociedade Conjugal”, um contrato civil comum.
Mais do que constituir um direito, ao legislar sobre “sociedades conjugais” da vida civil da sociedade, o Estado regula sobre os corpos e a sexualidade, sobre a vida íntima, pessoal e secreta dos sujeitos. Dar nome é atribuir valor, e esse valor nada tem de natural; ele é cultural. Ao migrar para os cartórios, a instituição social do “casamento” carregou consigo perversamente, além da nomenclatura, toda carga moral, semântica e religiosa que lhe constituía: monogâmica, heterossexual, misógina e andronormativa.
Texto publicado no Jornal diário de Santa Maria em 17/07/2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/geral-policia/noticia/2017/07/da-paroquia-para-o-cartorio-9832579.html

Militontos

Ao viver tempos de tamanho acirramento de ânimos, fico pensando sobre o que deve nos mover a lutar por tempos melhores, por uma sociedade diferente. A pergunta é: pelo que militamos? O que nos leva às ruas? Quais são as causas? Que país queremos e pelo qual devemos militar? O professor Carlos Lessa, aposentado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, se diz assustado pelo que chama de desconstrução da identidade brasileira, e, associada a ela, a ausência de um “projeto nacional”, de um projeto de país, um projeto educacional e cultural claro, um projeto industrial explicitado. Por onde podem prosseguir estas questões? Segundo o professor, saiu de pauta! E mais, há um processo ideológico assustador pelo qual estamos renunciando a ideia do Brasil “ser”. Somos, nesse sentido, militantes sem uma verdadeira causa, sem um projeto político sólido e transformador que a substancie, na verdade então, meros “militontos”.
A palavra militante tem origem Celta. Na Roma antiga, mais especificamente na Península Ibérica, formavam-se grandes fortificações, os chamados “Castrum”, que arregimentavam pessoas para lutar em sua defesa. Durante períodos de conflito, as populações que habitavam o campo aberto se recolhiam nos ditos “castros”, áreas protegidas e reservadas às legiões romanas. Como havia muitas pessoas, e muitas delas se voluntariavam à luta, eram selecionadas pelo critério de um em cada mil. Assim, aquele “milite” escolhido não fazia pesar um rótulo de desonra para os muitos preteridos. Com o tempo, a palavra “milite”, aquele que luta, ganhou valor idiomático, de “coisa principal”.  Militante, portanto, por definição, é aquele que se dedica a lutar pelo que há de mais nobre, por aquilo que realmente valha a pena militar.
Vejamos alguns exemplos ao longo da história, de verdadeiras lutas que moveram militâncias, por causas igualmente grandes, socialmente significativas. O primeiro deles que vem em mente é o da Revolução Francesa, em verdade, uma revolução burguesa. Cansados de sustentar com seu suor, seus nervos, músculos e sangue os privilégios da nobreza, os comerciantes e pequenos industriais burgueses, camponeses, proletariados urbanos, promoveram uma das maiores transformações sociopolíticas que a história moderna registra. Derrubaram a nobreza e refundaram a sociedade francesa sobre novas bases. Com isso, revolveram não somente sua própria sociedade, como também instituíram uma nova gramática social e política que reverberou por todo Ocidente. Como se vê, os militantes que foram à rua, que incendiaram a Bastilha e cortaram a cabeça de Luís XVI, tinham, de fato, uma grande causa: transformar profundamente seu país.
Pouco mais de meio século depois, e na esteira desta última, ocorreu a chamada Primavera dos Povos. As revoluções de 1848, entretanto, tinham nova feição. A burguesia agora não mais era revolucionária, mas conservadora. Buscava preservar uma certa ordem que havia então estabelecido sobre a exploração do trabalho das classes subalternas. Foi a vez da sublevação proletária contra a burguesia industrial. Esgotados pelas condições severas de vida e trabalho, operários e camponeses, das cidades e do campo, tomaram as ruas na França, e de muitos outros países da Europa Central e Oriental, movidos por ideais revolucionários. São os primeiros registros na história de efetiva mobilização proletária. São os explorados tomando as ruas e militando em causa própria. São as ditas “classes perigosas” buscando subverter a hegemonia política da burguesia e seus privilégios. Aliás, talvez seja exatamente isso que explique seu apagamento dos livros didáticos e da narrativa histórica mais tradicional. Em minhas aulas, com facilidade, os alunos lembram nomes de personagens e “heróis” da revolução burguesa de 1789, mas nem mesmo remotamente sabem dizer um nome dos levantes proletários de 1848, militantes comuns, gente do povo, mas com ideais claros; que se opunham à propriedade privada dos meios de produção, sem dúvida, uma nobre causa.
Poderia aqui examinar muitos outros exemplos e mostrar que em cada caso, o que moveu as lutas das pessoas eram causas que realmente revolviam em profundidade suas próprias sociedades. Eram lutas sociais e políticas verdadeiramente militantes! No entanto, vou apenas enumerar algumas, com o risco óbvio de deixar muitas delas de fora. A Revolução Americana, que buscava a própria fundação de uma nação livre e autônoma, uma sociedade que caminharia pelas próprias pernas, independente do Império britânico; a Comuna de Paris, segundo alguns historiadores, a primeira e única experiência socialista da história; a Revolução Russa, que em 2017 completa cem anos e que subverteu completamente toda ordem social ainda assentada em laços da feudalidade; a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana, que refundaram os modos de produção econômica de bens sociais de suas nações; a Primavera de Praga, o Maio de 1968 na França, a Primavera Árabe, todos exemplos essencialmente militantes, assentados em lutas ideopolíticas e projetos envolvidos com profundas transformações na sociedade.
Infelizmente este não é o caso brasileiro. Talvez a última seja a mobilização pelas Diretas Já! Na primeira metade dos anos 1980 vivíamos um período de medo e terror, depois de mais de duas décadas de ditadura civil militar. Ali havia uma militância visceral. Lutava-se para sobreviver enquanto sociedade civil. Era votar, ou morrer politicamente, abdicar socialmente. Havia uma militância viva, ativa, voluntária. Conhecia-se o “inimigo”, havia um projeto, e era o de um país democrático. A emenda constitucional foi derrotada no Congresso, mas a militância não perdeu, por isso, sua dignidade.
Depois disso, só fizemos descer os degraus da nossa insignificância militante. O evento “Caras Pintadas” consistiu numa multidão de jovens, maioria deles adolescentes, que ocuparam as ruas em todo o país com os rostos pintados de verde, amarelo e azul, como forma de protesto contra o governo. Embora corroído de corrupção, ruiu porque não interessava mais às elites que o haviam eleito. Foi uma mobilização convocada pela grande mídia, nominada e orquestrada por ela. A população na rua “mobilizada” ofereceu sustentação moral e legitimou o fim do governo. Foi, em verdade, um grande espetáculo midiático, mas nem remotamente um movimento político popular, propositivo e militante. Aquela multidão de jovens não tinha sequer ideia de um projeto de país a propor!
Mais recentemente vivemos as manifestações de junho de 2013, as ditas Jornadas de Junho, expressão tomada lá dos movimentos de 1848 na Europa. Uma população inteira mobilizada, espontaneísta, sem pautas claras, tão explosiva quanto efêmera, e o mais assustador: não admitia bandeiras. Ora, sou de uma geração que lutou nos anos 1980 para tê-las! Sou de um tempo em que só eram admitidos dois partidos, a ARENA e o MDB, e este era o depositário de todas bandeiras de Oposição e luta contra uma Situação covarde, um governo facínora. Nossas bandeiras eram nossas pautas, nossas bandeiras eram os símbolos concretos de nossos Projetos de nação, nossas bandeiras nos faziam militantes! Por essa razão, um tipo de movimento social que não as admite não tem fundamento, não é militante. A prova disso é que, quinze meses depois das ditas Jornadas, elegemos o Congresso mais conservador e golpista da nossa história; um covil de despachantes dos cartéis econômicos. Composto por uma miríade de deputados, fanáticos, mal-intencionados, como se viu na ocasião do impeachment da presidenta Dilma; à exceção de raríssimos representantes. Um Congresso inepto, medíocre e irresponsável, capaz de promover espetáculos dantescos, como a aprovação da lei das terceirizações e as iminentes reformas trabalhista e previdenciária.

Por último, depois de gravações e delações expetacularizadas pela mídia, milhares de manifestantes que a execravam até então, vão às ruas para protestar, pautados por ela! Para usar uma expressão do sociólogo francês Guy Debord, é a própria sociedade vista como espetáculo. Uma população ensandecida, sem a mínima articulação de um projeto político, ou organização partidária sólida, toma o espaço público acreditando que promoverá alguma mudança substancial. A Direita apoia uma operação da Polícia Federal; a Esquerda pede a renúncia do Presidente, ingenuamente acreditando que reconstituirá a legalidade do processo através do voto direto em um sistema eleitoral apodrecido. Entretanto, nenhuma delas propõe nem apresenta seu projeto de nação. Há interesses, mas não há projetos sociais articulados politicamente. Nesse cenário; de apagamento de luta social sólida, de esparço reascenso de um efetivo movimento de massas que obrigue a classe política organizada, os partidos, a discutir e debater uma verdadeira agenda institucional para o país; não há militância, no sentido histórico político do termo; mas tão somente mobilização, agitação, ativismo espontâneo mostrado e vendido como espetáculo na mídia. E como substância dele, uma miríade de discursos desencontrados, tartamudos, “militontos” sem bandeiras claras, sem projetos evidenciados, sem mesmo saber pelo que se está lutando.
Texto publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 07/06/2017 (sem alterações)
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/economia-politica/noticia/2017/06/militontos-9810405.html

terça-feira, 16 de maio de 2017

Pauta Abuso Jornal Bento Gonçalves

1. Como a sociologia entende esse fenômeno?
A sociologia, como uma ciência social, busca compreender as causas e razões sociais desse fenômeno. A violência contra crianças é apenas (infelizmente) mais um tipo de violência marcante em nossa sociedade. Não é possível pensar este fenômeno descolado da realidade concreta do qual ele emerge. Alcoolismo, desemprego, desestruturação da esfera doméstica (não gosto do termo “família”, acho que mais complica do que elucida), ascensão de valores como força, virilidade. O abuso de autoridade do adulto sobre as crianças também é encontrado em outras esferas da vida social; nas polícias, nas escolas, na política, no judiciário, que atropela princípios jurídicos.... Dessa forma, o fenômeno “abuso” é uma constante na vida social brasileira. Obviamente, uma face visível e cruel é o que denominamos como violência infantil. Lembro que a Lei do Ventre Livre, foi uma lei abolicionista, promulgada em 1871 (há apenas 146 anos) e considerava livre todos os filhos de mulher escravas nascidos a partir desta. Ressalto que como seus pais continuavam escravos (a abolição legal só ocorreu em 1888), a lei estabelecia duas possibilidades para as crianças que nasciam livres. Poderiam ficar aos cuidados dos senhores até os 21 anos de idade ou entregues ao governo. O primeiro caso foi o mais comum e beneficiava os senhores que poderiam usar e desfrutar do corpo e do trabalho destas crianças e jovens “livres”. O abuso já foi, portanto, institucional e legal em nossa sociedade.

2. Vocês acreditam que houve uma mudança nesse cenário nos últimos anos? Se sim, pra melhor ou pior?
O fato de os casos de violência doméstica e entre eles o abuso infantil, terem-se tornado um fenômeno público, de comunicação obrigatória quando detectada e um caso de saúde pública; fizeram com que esse fenômeno ganhasse maior publicidade e visibilidade. É possível mesmo que crianças e jovens, expostos a este tipo de violência, há um tempo, não identificassem que estavam sofrendo algum tipo de violência. Com a visibilidade adquirida pelo fenômeno, aqueles que dela são vítimas passaram a se ver nessa condição. Dessa forma, embora os casos de violência possam ter recrudescido ou até mesmo ganhado nova dimensão, é possível crer que sua visibilidade parece ser a maior responsável pelo aparente aumento percentual. Dito de forma mais direta, não se pode saber com precisão se os casos aumentaram, mas é certo que as vítimas estão mais encorajadas a denunciar. Quando um jovem ou criança ligar para o nº da denúncia, saberá que do outro lado da linha haverá alguém disposto e preparado a lhe ouvir e acreditar no seu relato. Finalizando, não creio que os casos tenham diminuído, mas há possibilidades de um acolhimento mais imediato e preparado para as vítimas.

3. Como entender uma sociedade que pratica violência sexual contra crianças?
Vivemos em uma sociedade violenta em sua essência. Mesmo antes da chegada dos europeus, a guerra, a violência era central nas relações entre os diferentes grupos que compunham as sociedades tribais (as matrizes nativas indígenas). Entretanto, em nosso projeto de nação, na construção do imaginário social de uma nação independente era importante erigir o mito de um “país abençoado por deus e bonito por natureza”. Uma utopia falsa. Historicamente, como povo, como população, somos, inversamente, uma país “esquecido por deus” e “violento por natureza”. A violência, dessa forma, está em nosso “dna social”, na nossa construção identitária, étnica. Negamos isso, é claro. Através da linguagem, buscamos sempre, atenuar esta violência. Chamamos verdadeiros crimes de trânsito de “acidente”, guerras civis de “revoltas” ou de “levantes”, exploração cruel de trabalho assalariado de “colaboração”, golpes políticos de “impeachment”, veneno agrotóxico de “defensivo agrícola”, e assim por diante... Praticamos violência não só contra crianças, mas contra todos os vulneráveis em nossa sociedade: velhos (que chamamos suavemente de idosos), contra deficientes físicos, contra doentes, contra mulheres, contra negros.... nossa violência é endêmica, histórica. Conheço a realidade concreta da escola, mas já li sobre situações semelhantes na saúde, na literatura da psicologia. Velhos, crianças e doentes não denunciam as violências que sofrem temendo ser expostos a mais, e mais cruéis violências. Fecha-se aí um ciclo vicioso de mais e mais violência. Creio que seja, dessa forma, a razão pela qual somos uma sociedade violenta, e as crianças como parte desta sociedade, vulnerável que é, sofre severamente essa violência.

4. Como é possível essa criança viver em sociedade após um fato destes ter ocorrido?
Toda situação de abuso é uma situação de trauma. Este é um crime de determinação social mas vivido individualmente, solitariamente. Acredito que quem está mais preparado para pensar esta questão seja alguém da psicologia. Sociologicamente pode-se pensar em criar às vítimas situações de acolhimento e proteção. É preciso proporcionar à criança ou ao jovem vítima, situação de apoio de psicólogos, professores, assistentes sociais; técnica e pedagogicamente preparados para lidar com estas situações.

5. O Sr acredita que é possível reverter esse cenário para que daqui alguns anos isso não aconteça mais?
Não creio que isso se resolva de forma tão rápida ou imediata. A violência em nossa sociedade não é algo circunstancial, mas estrutural. Sendo assim, essa é uma situação que não se resolve em anos, ou uma década; mas em um espaço temporal bem mais alargado. Uma sociedade se renova e se atualiza a cada nova geração, algo em torno de 20 a 25 anos. Cada nova geração nasce, cresce, é educada e aprende novos preceitos legais diferentes dos das anteriores. É a isso que denominamos como transformações sociais. Daqui algumas décadas possivelmente vivamos em um tempo onde justiça social seja um valor do qual que ninguém mais duvide, que nós cumpramos as leis de trânsito, que haja equidade entre homens e mulheres, que não mais acreditemos em diferenças raciais, e que não sejamos mais capazes de abusar física e psicologicamente de crianças, velhos e doentes.

pauta jornalista Laura Gross
http://www.jornalsemanario.com.br/noticia/abuso-sexual-infantil-bento-ja-registra-17-casos-em-2017


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Masculinidade hegemônica

Nos últimos dias, acompanhamos dois eventos que nos levam a pensar sobre as relações entre homens e mulheres, entre o que entendemos como “feminino” e “masculino” em nossa sociedade. O primeiro deles envolveu o ator José Mayer, ao assediar a figurinista Susllem Tonani nas dependências da Rede Globo, e o outro, nos estúdios do Programa “Big Brother Brasil”, quando o participante Marcos, usando de sua força física, encurralou em um canto da Casa a colega de programa Emilly obrigando-a a ouvir os seus brados. O que os dois casos tem em comum? O que nos dizem sobre nossas relações cotidianas? O que dizem sobre nós, como sociedade?
Vivemos em um mundo onde a masculinidade, é a forma social dominante. É importante lembrar que esta masculinidade é algo que está para além de “ser homem”, uma vez que nem todos os homens são, por assim dizer, “masculinos”. Ela é uma forma social, um padrão, uma referência. A prova disso é o tanto que é “masculino” o mundo que nos cerca. A linguagem é um exemplo: “alunos” refere-se a todos, “alunas” somente às meninas. A religião predominante em nosso país, pretensamente laico, é uma religião masculina. Seu profeta é um homem, filho de um deus masculino, cujo representante na terra é um homem (o Papa), cercado de homens com poderes deliberativos (os cardeais) e representado em milhares de localidades por homens que podem professar sua palavra: os padres. Outro exemplo é a política. Basta observar a proporção de deputados federais, estaduais, vereadores, ministros. São majoritariamente homens. Raríssimos são os casos de mulheres que ocupam cargos de governo e gestão pelo mundo. Mesmo em lugares e instâncias em que o feminino tem ampliado seu acesso e seus espaços, ainda carecem de dinâmicas que propiciem sua ação e circulação. Ou seja, é um mundo onde a masculinidade é hegemônica.
Essa hegemonia, essa dominação, essa preponderância de tudo que é masculino sobre toda a sociedade possui raízes profundas e históricas. Não se dá de maneira clara e aberta, de forma fácil de se identificar. Essa preponderância masculina que coloniza o imaginário de toda a sociedade se realiza de formas indiretas e pouco perceptíveis, mas nem por isso deixam de reproduzir toda dinâmica de exclusão e violência de que são capazes. A estas dinâmicas o sociólogo Pierre Bourdieu denominava de violência simbólica. Afirmava ele que a construção das identidades femininas teriam se pautado na interiorização pelas mulheres das normas enunciadas pelos discursos masculinos; o que corresponderia a uma violência simbólica que supõe a adesão dos dominados às categorias que embasam sua dominação.
A socióloga Adrianne Rich traz outro exemplo para pensar a questão da restrição às mulheres à esfera pública e portanto, à autonomia. Ela concluiu que a roupa feminina sempre foi socialmente pensada e desenhada de forma a restringir os movimentos das mulheres. Com isso, o que está sendo restringido era a própria liberdade feminina, suas possibilidades de ação, evitando assim, ao fim e ao cabo, sua efetiva ação e participação na esfera pública. Roupas consideradas como símbolos de beleza, de distinção e reserva, de sensualidade, de delicadeza, e até mesmo de libertação, distinção e emancipação, configuram contraditoriamente como o preço de sua própria exclusão e restrição. O véu e a burca, os vestidos e as saias justas e curtas, os saltos altos, a maquiagem, o batom, os decotes; importantes símbolos de distinção e identificação feminina, são para Rich, decisivos limites para a ação feminina para além da vida privada.  
Outra autora que nos ajuda a pensar esta questão é a antropóloga estadunidense Rawyn Connel. Ela entende que a forma hegemonicamente masculina, em especial americana e europeia, solidamente ligadas a ideais patriarcais e sexistas, consagram o que é masculino como lugar positivado de poder, virilidade, agressividade e ausência de emoções. Essa forma de conceber as relações sociais espalha-se pelo mundo através de um longo processo de globalização e colonização do imaginário e das consciências, através do cinema, da televisão, da iconografia, da música, e com isso naturalizam o fato de os homens usarem de violência para alcançar seus objetivos.
Apenas para ilustrar, tenho ouvido com assustadora frequência nas rádios e na televisão uma música de uma dupla de rapazes que cantam em tom alegre e jocoso a seguinte letra: “Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada. E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca. Vai namorar comigo sim. Vai por mim igual nós dois não tem. Se reclamar ‘cê’ vai casar também, com comunhão de bens. Seu coração é meu e o meu é seu. Também”. Ou seja, é um homem que virá para acabar com a vida livre e alegre de uma menina, aniquilar sua autonomia, obriga-la a namorar com ele, convencê-la “na marra” de que ele é o seu melhor par “romântico”; caso ela não aceite apenas um fortuito namoro, ele a obrigará a casar-se com ele, apoderando-se dela, compartilhando materialmente seus patrimônios. Modelo este de união matrimonial, em desuso desde a Constituição de 1988. Fica evidente nesta letra um tipo de relacionamento abusivo, assimétrico, opressor e machista.
Em uma sociedade assim constituída configura-se o masculino como padrão social hegemônico e protagonista, e o feminino como seu coadjuvante. Nesses termos, pode-se compreender porque os homens se julgam no direito de investir contra mulheres, assediá-las, dar de dedo na sua cara, como nos casos relatados no início deste texto. Em uma sociedade que toma o masculino como norma dominante, torna-se compreensível, mas nunca aceitável ou justificável o desejo de controlar, possuir e aniquilar tudo que não possui o seu estatuto. Não são só as mulheres que são vítimas, mas toda a sociedade. Seguramente são as meninas e mulheres aquelas que sofrem psicológica e fisicamente a opressão mais imediata. Mas também sofrem com a violência todas as formas de viver o gênero e a sexualidade que não se enquadram no padrão binário e hegemônico de homem e mulher, de masculino e feminino.

Por tudo isso, pode-se compreender que quando um homem agride uma mulher, esta agressão não significa uma ação isolada, pessoal, ocasional, circunstancial. Ela é um ato socialmente determinado, conjuntural, estrutural. Quando um homem assedia ou investe contra uma mulher ou qualquer outra representação feminina; no ambiente de trabalho ou em casa, desde os casos mais corriqueiros até os mais graves, como feminicídio, lesbofobia, transfobia; todos eles são crimes de conotação política, e devem ser tratados como uma questão pública, de uma violência estrutural e cruel, chancelada por uma sociedade misógina e hegemonicamente masculina.
Publicado na Coluna Sociedade do Jornal Diário de Santa Maria - 19/04/2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/noticia/2017/04/masculinidade-hegemonica-9775481.html

terça-feira, 18 de abril de 2017

Igualdade e diversidade

Desde algum tempo, nas aulas sobre cultura de diversidade, procuro por um exemplo que apresente claramente a distinção entre diferença e desigualdade decorrentes da diversidade social, econômica e geográfica da sociedade. Acredito que finalmente encontrei este exemplo.
Passei os últimos dias em uma praia de Santa Catarina. Durante este tempo, entre o mar, o sol e as caminhadas, ficava observando o movimento de pessoas pela areia. Muita gente passeando, aproveitando aquele lugar para descansar, mas também muita gente trabalhando. Garçons, guarda-vidas, instrutores de stand up paddle e de surf, pescadores e mais uma porção de gente ocupada em pequenas vendas à beira do mar. Foi a partir destes últimos que tive a ideia do exemplo de que falei para as minhas aulas.
No meio daquela multidão de gente, chamam a atenção os vendedores de redes e mantas tecidas no nordeste do Brasil, seguramente por mãos femininas, e vendidas no sul do país por homens que empurram seus carrinhos lotados de carga. Carregam um sotaque forte típico do nordeste brasileiro. São paraibanos, cearenses, alagoanos, pernambucanos que migram de seus domicílios de origem, a milhares de quilômetros, deixando o convívio de seus familiares e amigos, viajando escondidos e precariamente acomodados nos baús de caminhões, em busca de algumas vendas nos meses de calor do sul. São gentes, para usar uma denominação de Darcy Ribeiro, de pele amorenada, compleição física mediana, provavelmente descendentes das camadas mais pobres daquela população. Dessa forma, o passado escravocrata do nordeste brasileiro imprime, ainda hoje, nas praias do Sul, uma indelével marca de sua forma social excludente. Ao vê-los transitar pela areia, não como turistas, mas como trabalhadores precariados, percebemos que eles não nos revelam a diferença, mas a desigualdade de nossa sociedade.
Outro grupo ocupado de pequenas vendas à beira do mar são os jovens senegaleses com seus “paus de selfie”, capas para mobiles e óculos de sol. São de uma negritude intensa, expressada pelo forte tom escuro de sua pele e pela compleição física alongada e esguia. São gentis, sorridentes, falam um português atrapalhado pela influência francófona de sua colonização e pelo espanhol aprendido açodadamente nos entrepostos de sua migração global. Vendem produtos que pouco se sabe sobre sua fabricação. Sabe-se lá que mãos foram exploradas e usurpadas para sua montagem e transporte. Revelam o lado perverso da tão aclamada “globalização”, em que os produtos do trabalho humano não conhecem fronteiras, que estes mesmos humanos só veem recrudescer. A presença na praia destes grandes meninos de pele intensamente negra não revela a diversidade da nossa sociedade, mas a abissal desigualdade entre quem está ali para fazer turismo e quem precisa estar ali para poder sobreviver.
Por fim, chama ainda atenção uma porção de jovens caingangues, meninos e meninas, vendendo pequenos artesanatos, bijuterias e tererês para o cabelo. Como os dois outros grupos discriminados anteriormente, também carregam em sua aparência física, traços diacríticos que os identificam e os distinguem. No entanto, este é o limite da diferença, em tudo o mais, sua presença na areia à beira do mar apenas nos revela a desigualdade da qual são vítima e consequência. São o epifenômeno de um longo e perverso processo social, no qual sempre estiveram à margem, nas franjas, à sobra. A dureza de seu trabalho, dificultada pela rudeza da areia quente e do sol a pino, contrasta com a graciosidade de seus cabelos escuros e olhos “rasgados” que em muito lembram os orientais, comprimidos em suas faces franzidas pela luz e pelo calor da praia. Facilmente chamam a atenção no meio da multidão de gente, mas não por suas diferenças, e sim pela face cruel de um processo colonizador desigual e terrível de que são evidência.

Toda esta multiplicidade de pessoas, de produtos, de origens, de sotaques e de tons não revelam a diferenças da nossa sociedade, mas as suas desigualdades. Para que a diversidade histórica, étnica, social e econômica da sociedade transforme-se em diferenças, é preciso primeiro que sejam preservadas as condições mínimas de dignidade humana, de condições de trabalho, de alimentação, de educação, de ocupação do espaço para viver e reproduzir-se socialmente. Sem isso, nossas diferenças não se realizam, não se evidenciam, não são diferenças. Tudo o que aquela diversidade revela então são as nossas desigualdades; uma espécie de “dessemelhança” como seres sociais, decorrentes de nossos diferentes processos sócio-históricos, das disparidades de oportunidades, de seres humanos que, no limite, são idênticos em suas potencialidades. Como nos ensinou Rosa Luxemburgo, jamais seremos humanamente diversos, se não formos socialmente iguais.
Publicado na coluna Sociedade do Jornal Diário de Santa Maria - em 22/02/2017
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/noticia/2017/02/das-praias-de-santa-catarina-exemplos-de-desigualdades-9727530.html