quarta-feira, 15 de maio de 2019

É só o começo!


Hoje está sendo um dia de manifestações em todo o Brasil. Há tempos não se via tamanha vontade popular de lutar e resistir. Ao que parece, pode ser um primeiro passo em direção ao rescenso das massas no sentido da sua autonomia intelectual, de sua autodeterminação, pode ser só o começo da retomada de seu protagonismo de lutas e militância.
É bem verdade que entre 2013 e em 2016 a população foi às ruas, mas naquele momento o que os impelia não eram suas consciências propriamente ditas; eram, em verdade, estímulos externos, a maior parte deles impulsionados pelos “think tanks”, os tanques de cérebros, repositórios intelectuais de ideias contrárias aos ideais populares. No limite, eles foram e são as organizações por trás da guinada da direita na América Latina, guiada por ideais e interesses neoliberais e contrários aos mais pobres, aos trabalhadores, em especial aos mais jovens.
Não é de se estranhar que o reascenso de agora tenha seu germe na Educação. É ela o setor mais castigado pelas crueldades do novo Governo.
Foi entre 2005 e 2012 que o Ministério da Educação promoveu expansão e interiorização do ensino superior. Dessa forma, foram criadas 18 universidades federais, foram construídos 173 campi universitários, foram construídos 360 institutos técnicos federais, foram concedidas dois milhões de bolsas do ProUni, foram financiados dois milhões e meio de pobres que não tinham como entrar na universidade, senão pelo FIES. Tudo isso permitiu aos jovens, principalmente os mais pobres, sonhar e efetivamente participar como protagonistas da produção de conhecimento e da divisão sociotécnica do trabalho.
Ora, basta observar as datas! Essa ascensão social promovida pela Educação pôs em pânico a classe média conservadora. Detentora histórica do capital simbólico promovido pelo conhecimento, a classe média higienizada se viu dividindo o espaço que julgava exclusivamente seu com as filhas e filhos das empregadas domésticas, dos pedreiros, dos mais pobres; se viu competindo no mercado de trabalho com gente que até então lhe servira como subordinado e subserviente. Foi isso que a fez servir de tropa de choque, massa de manobra do processo que culminou no golpe de 2016.
Se é momentaneamente mais difícil a luta contra o poder econômico, cuja manutenção pertence à “Elite do Atraso” nas palavras do sociólogo Jessé Souza, a luta pela democratização do conhecimento é a pauta possível e mais urgente da agenda política do momento. Setores populares da sociedade brasileira, e em especial os jovens, são os que mais se beneficiam dos investimentos em educação. É por essa razão que são eles que estão hoje no pelotão de frente da resistência. Que seja só o começo!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, por conta dos protestos em favor da educação e contra os cortes do governo
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/%C3%A9-s%C3%B3-o-come%C3%A7o-1.2141453

domingo, 28 de abril de 2019

Trabalho e segregação


Há alguns anos, em uma aula para alunos do curso de Arquitetura discutíamos como nós brasileiros, em nossa organização da vida doméstica segregamos, pelo trabalho, a forma como habitamos, convivemos e nos relacionamos em sociedade. O jornalista Anselmo Goes reporta que para atender à demanda de brasileiros mudando-se para Portugal as construtoras de lá vem fazendo adaptações nos projetos, que inclui “quarto dos fundos”, “área de serviço” e até “tanque”, imitando a forma segregadora que fazemos por aqui
Nessa aula, veio à discussão a questão do “quarto de empregada”. Como vimos, não há esse conceito em outros países, somos nós que o levamos para fora. Ele é uma espécie de senzalinha moderna, mal ventilada, mal iluminada, geralmente entulhado de bugigangas, em que enfurnamos pessoas. O quartinho de despejo é a reminiscência do nosso passado escravocrata e excludente. É lá que a empregada da casa se recolhe enquanto os patrões almoçam. Só depois esta mesma empregada, às vezes com seu filho, pode comer. Não precisa haver, nesse cenário, nenhum gesto explícito de preconceito de classe, nenhuma a palavra ofensiva, por vezes racista ou misógina. O ato em si é um gesto pedagógico e ensina que aquela mulher e seu filho ou filha não são seres como o mesmo estatuto social (e humano) dos patrões. O gesto os faz crer, perversamente, que são seres de segunda classe. Essa criança guardará para a vida o sentimento e a percepção de que para ela, as coisas são depois, crescerá naturalizando a segregação, contentando-se com as sobras.
Outra questão que veio à discussão na aula foi a do elevador “de serviço”. O mesmo aluno argumentou sobre sua necessidade e exemplificou: “imagina colocar gesso no décimo andar e ter de compartilhar o mesmo elevador com outros moradores!” O gesso faz muita sujeira, solta pó, sujaria o espaço e as roupas de todas e todos. Concordei, mas não sem ressalvas, lembrando que mesmo depois do serviço concluído, já limpos, os colocadores de gesso, continuavam utilizando o elevador de serviço. Prova de que o que está sendo segregado não é a natureza do trabalho, mas as pessoas que o realizam.
Podemos confirmar essa conclusão lembrando daquela empregada do um outro apartamento que desce já sem sua roupa de trabalho, banhada, mas mesmo assim desce pelo mesmo elevador de serviço. Ah sim, talvez seja porque ela desça carregando a sacolinha de lixo! E mais, se não o fizer, será reprendida pelo porteiro; sempre muito limpo e vestido alinhadamente; mas que, curiosamente, só usa o elevador social quando sobe ajudando a carregar sacolas. E ainda desce de volta até a portaria pelo elevador de serviço, todo sujo de gesso!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 20 Fevereiro 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/trabalho-e-segrega%C3%A7%C3%A3o-1.2125047

Bullying não é humor


Muito se tem falado nos últimos dias sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. O debate foi reaceso depois de duas condenações do jornalista Danilo Gentili (pelo crime de injúria contra a deputada federal Maria do Rosário e por ofensa e danos morais ao também deputado federal Marcelo Freixo). Ora, o debate não deveria ser exatamente esse. Uma democracia estará tanto mais viva quanto mais estiver garantida a liberdade de expressão, seja ela nas mais variadas formas de manifestação e uma delas é o humor. Não é essa a questão.
A palavra humor deriva do latim “umor”, que significa fluido ou seiva, por outros termos, o líquido essencial que alimenta os seres vivos. O “H” aderiu ao termo por uma associação com “húmus”, que em latim significa “terra”. Ou seja, “humor”, na origem, remete à ideia de terra molhada, rica, que alimentará a vida. Humor é alimento da vida, nunca pode, portanto, ser limitado ou criminalizado!
Como expressão artística e política o humor está ligado a formas de resistência. É como chargistas, cartunistas, caricaturistas, pintores, desenhistas, escultores, roteiristas, atores, compositores, historicamente desafiaram, fazendo graça, o poder e os poderosos: chefes de Estado, líderes autoritários, ícones da mídia e da economia. Fazendo-os parecer ridículos e patéticos. O humor é uma arma cirúrgica contra os opressores. Por essência, ele é também um poder, porém, contra hegemônico.
Voltando então ao caso do jornalista, convém lembrar que ele acumula em seu currículo, além de ofensas e injúrias, outros ataques a pessoas ligadas a grupos historicamente vilipendiados. Em 2012, pelo Twitter, ofereceu bananas a um internauta negro; este mês, enquanto a parlamentar Tábata Amaral falava em defesa de milhões de trabalhadores, durante a oitiva do Ministro da Economia na Câmara, twittou “a mina é tão gorda que acha que até os ministros devem ser temperados”.
Isso não é humor, é agressão; não alimenta a alma, não fortalece os que precisam resistir, não inspira a superação das nossas limitações ou fealdades. Não tem graça. Pelo contrário, no mundo de hoje, patético ou ridículo é ver graça nisso. Só os covardes o fazem.
O verdadeiro nome disso é Bullying, repito, Bullying!!! Humor, é tirar onda com o canalha que faz Bullying, com o valentão, com o fortão!! Fazer piada com a coleguinha gordinha, a magricela; o coleguinha negro, o coleguinha com roupa puída, o de óculos, o orelhudo, o dentuço, não é humor, é Bullying; não é liberdade de expressão, é agressão e covardia, e é assim que deve ser tratado pela justiça.
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, dia 17 de abril de 2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/bullying-n%C3%A3o-%C3%A9-humor-1.2136320

segunda-feira, 25 de março de 2019

Armas matam pessoas


Resultado de imagem para desarmamentoO grau de violência de uma sociedade está diretamente determinado pelo nível de desigualdade que a constitui. Em uma sociedade onde existe alta concentração da propriedade privada e, portanto, da renda, e sua consequente alta desigualdade social e econômica, implica níveis de violência que exorbitam na forma de violação de direitos, crime organizado, violência urbana e violência doméstica. Defender que violência se combate coma mais violência, ou armando as pessoas, significa não agir na raiz do problema, mas alimentar ainda mais um sistema em crise.
Pessoas armadas matam pessoas e aumentam o grau de violência, sobretudo em uma sociedade desigual. No brasil, por exemplo, por ano, mais de 40 mil pessoas são mortas por armas de fogo, número que coloca o País em primeiro lugar do ranking mundial de mortalidade por armas publicado pelo Global Burden Disease, órgão da Organização Mundial da Saúde que pesquisa as causas de morte pelo mundo.
O atual governo brasileiro defende e fomenta o uso de armas de fogo. É uma posição homicida! Os meios de comunicação, diante disso, buscam mostrar o atual quadro, como um cenário de polarização. Criam a ideia de uma simetria entre dois lados idênticos e opostos. Em um deles, ideais historicamente burgueses como a inclusão, a diversidade, a tolerância e a ascensão das lutas populares; de outro, ideais supremascistas como a xenofobia, a intolerância às lutas sociais e pautas identitárias, e o mais extremista e perigoso deles, pois recrudesce todas a outras, o culto às armas. Faz isso equivocadamente, como se a violência fosse uma questão meramente individual e não uma questão social, de segurança pública e coletiva, no quadro de uma sociedade injusta e desigual.
Não há polarização. Na tentativa de parecer isenta e imparcial a mídia hegemônica apresenta um cenário de falsa simetria. Só um dos lados cultua a violência explícita e ensina criancinhas em palanque público a imitar, inocentemente, armas de fogo com as mãos! O contraste não é de esquerda contra direita, conservadores contra progressistas, mas concretamente de civilização contra a barbárie.
Armas matam pessoas e colocar a questão armamentista como um lema de governo mostra o grau de violência e insanidade sob o qual a sociedade brasileira está sujeita. Mas isso não mais nos surpreende. Vivemos num lugar em que o comandante da Nação declarou publicamente em 1999 que, para resolver os problemas do País, só “matando uns trinta mil”, as dez mortes trágicas na escola de Suzano nos levam a concluir que ainda faltam 29.990 pessoas. Só resta torcer para que não sejamos uma delas!
Publicado no Jornal Diário de Santa Maria, edição de 20 de março de 2019.
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/armas-matam-pessoas-1.2130320

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Marionete sem cordas

Thomas Mann publicou em 1924 um dos romances mais influentes da literatura mundial do século XX. “A montanha mágica” inspira-se no tempo que o autor acompanhou, ainda jovem, o tratamento de sua esposa Katharina, em um sanatório, em Davos, nos Alpes suíços. É exatamente nesse mesmo lugar que nos finais de janeiro de cada ano personalidades de todo o mundo se reúnem para debater as questões globais mais prementes. É lá que está nesta semana o nosso presidente da república. A saída do país nesse momento tem suas razões.
Desde que assumiu o cargo, há menos de um mês, muito tem-se falado das ações do novo governo. Não parece haver precedentes de um início de gestão tão insólito e tumultuado. Mas é apenas aparência, removendo um pouco as gavetas da nossa memória encontramos, na história recente, inícios de governos muito parecidos com este que está em curso. Em “Brasil: uma biografia” a historiadora Heloísa Starling e a antropóloga Lilia Schwarcz contam que logo que assumiu a presidência, Jânio deixou claro que se saía melhor disputando votos que administrando o país. Foi um mestre nas patacoadas! Criou uniforme para o serviço público, em estilo safári, e mandou publicar no Diário Oficial. Tinha a cor bege e logo foi apelidado de “pijânio”. Vetou corridas de cavalo e rinhas de galo e para completar colocou dois burros para pastar a grama verde do Palácio da Alvorada. Como se não bastasse, preocupado com o sol forte do cerrado brasiliense, mandou colocar chapéus de palha nos animais!
Collor é outro exemplo: embora também folclórico sua marca foi o impacto. Depois de uma campanha suja apoiada pelo empresariado e pala mídia, assumiu, e, no dia seguinte reuniu a equipe econômica e anunciou à imprensa um severo pacote de reformas. Bloqueava, da noite para o dia, o dinheiro das contas correntes, aplicações financeiras e cadernetas de poupança. Em campanha, alardeou que seriam os adversários que fariam isso. Era um mentiroso, como se soube depois. Congelou salários, reajustou tarifas de serviços públicos, e instaurou pânico entre a população. Não foi um começo tranquilo!
Já o atual governo não deixou por menos. Começou tão insólito quanto tumultuado. O presidente age como um autômato, uma marionete sem cordas no centro de um picadeiro em que o elenco em sua volta não é senão um esboço de sua própria mediocridade, mas é preciso considera-lo com seriedade. Ele se parece muito com Jânio e com Collor: compartilham o mesmo senso de política como espetáculo, embora por ela demonstrem desprezo; desdém pelas instituições, mas sem elas é inviável a democracia. Nenhum dos dois primeiros concluiu seu mandato. E nesta semana, assim que retornar de Davos, o chefe da nação terá muito a explicar a respeito de seu início de governo, sob pena de ter o mesmo desfecho. Talvez perceba, em tempo, que o sanatório que inspirou Thomas Mann nos Alpes é a metáfora exata do que seu governo transformou o país.

Publicado no Jornal Diário de Santa Maria em 23/01/2019
https://diariosm.com.br/colunistas/sociedade/marionete-sem-cordas-1.2119271

sábado, 19 de janeiro de 2019

Twíte




sábado, 12 de janeiro de 2019

Sobre o "lixo marxista" (texto do profº Vladimir Safatle)

Imagem relacionadaFolha de São Paulo / 05 de janeiro de 2019

Vladimir Safatle (sempre ele), na minha modesta opinião, o mais lúcido intelectual brasileiro hoje

Nós, o lixo marxista

Tomou posse o primeiro governo eleito de extrema-direita do Brasil. Com ele, não há negociação alguma possível.  E nem ele procura alguma forma de negociação com aqueles que não comungam seus credos, que não louvam seus torturadores e que não acham que “é duro ser patrão no Brasil”. Não há razão alguma para se enganar e acreditar em certa normalidade: a lógica que irá imperar daqui para frente é a da guerra. Pois isto não é um governo, isto é um ataque. 
Já o discurso do sr. Jair Messias foi claro. Questões econômicas e sociais estiveram em segundo plano enquanto as duas palavras mais citadas eram “deus” e “ideologia”. Deus estava lá, ao que parece, para nos livrar da “crise moral” em que a república brasileira se encontra. Isto, diga-se de passagem, há de se conceder ao sr. Jair Messias: vivemos  mesmo uma crise moral profunda. Ela está instalada no cerne do governo brasileiro. Pois como justificar um governo cujo ministro da justiça ganhou seu cargo como prêmio por ter colocado o candidato mais popular a presidente nas grades e pavimentado a estrada para a vitória de seu atual chefe? Como descrever um governo que já nasce com ministros indiciados e um réu confesso que se escarnece da população brasileira ao afirmar “já ter se acertado com Deus” a respeito de seus malfeitos? Como descrever um presidente cujo motorista foi pego em operações financeiras absolutamente suspeitas e se negado duas vezes a comparecer à justiça sem sequer ser objeto de condução coercitiva? 
Mas o destaque evidente é a mais nova luta do estado brasileiro contra a “ideologia”. Enquanto uma de suas primeiras medidas governamentais foi diminuir o valor previsto do aumento do salário mínimo, mostrando assim seu desprezo pela sorte das classes economicamente mais vulneráveis, o sr. Jair Messias convocava seus acólitos à grande cruzada nacional para lutar contra o socialismo, retirar das escolas o lixo marxista e impedir que a bandeira brasileira seja pintada de vermelho. 
Alguns podem achar tudo isto parte de um delírio que normalmente acomete  leitores de Olavo de Carvalho. Mas gostaria de dizer que, de certa forma, o atual ocupante da presidência tem razão. Sua sobrevivência depende da luta contínua contra a única alternativa que nunca foi tentada neste país, que nunca se acomodou nem às regressões autoritárias que nos assolam, nem aos arranjos populistas que marcaram nossa história. Pois ninguém aqui tentou expropriar meios de produção para entregá-los à autogestão dos próprios trabalhadores, ninguém procurou desconstituir o Estado para passar suas atribuições a conselhos populares, aprofundando a democracia direta, e nem levou ao extremo necessário a luta pelo igualitarismo econômico e social que permite à todos os sujeitos exercerem sua liberdade sem serem servos da miséria e da espoliação econômica. 
Ou seja, a verdadeira latência da sociedade brasileira que poderia emergir em situações de crise como esta é um socialismo real e sem medo de dizer seu nome. A sociedade brasileira tem o direito de conhece-lo, de pensar a seu respeito, de tentar aquilo que ela nunca viu sequer a sombra. Ela tem direito de inventa-lo a partir da crítica e da autocrítica do passado. Mas contra isto é necessário calar todos os que não se contentam com a vida tal como ela nos é imposta por essa associação macabra de militares, pastores, latifundiários, financistas, banqueiros, iluminados por deus, escroques que tomaram de assalto o governo e que sempre estiveram dando as cartas, de forma direta ou indireta.
Assim, quando Jair Messias fala que irá lutar contra o lixo marxista nas escolas, nas artes, nas universidades, entendam que esta luta será a mais importante de seu governo, a única condição de sua sobrevivência. Pois ele sabe de onde pode vir seu fim depois de ficar evidente o tipo de catástrofe econômica e social para a qual ele está nos levando.