quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Insatisfação e insegurança.




Dois sentimentos podem ser percebidos quando observamos os movimentos da população brasileira ao ocupar as ruas em forma de manifestação. A insatisfação e a desesperança. A insatisfação é você mostrar-se descontente com o estado de coisas disposto pelo cenário político, e a desesperança é a sensação de que pouco há para ser modificado no sentido de subverter a atual situação.
Quando em 2013 boa parte da população brasileira tomou as ruas, era concreto e visível que o mote das manifestações públicas se dava em tom de insatisfação. As pessoas protestavam incisivamente, e convém acrescentar que de forma temerária, evitando bandeiras ideológicas ou partidárias, contudo mostravam-se não satisfeitas com os governos, as políticas públicas e a própria situação econômica do país.
Já nesses meados de 2015, os protestos não parecem ter o mesmo vigor nem numericamente e tampouco no que se refere à sua intensidade. Fica claro, portanto, que a sensação motivadora migrou da insatisfação para a desesperança. A população parece ter perdido a vontade de ocupar o espaço público justamente pelo sentimento de impotência e de incapacidade diante de um cenário político e econômico tão dramático e nebuloso.
Para muitos, o declínio numérico e do vigor dos protestos pode ser o sinal de sua perda de intensidade e portanto da sua virtual desimportância. No entanto, uma outra leitura pode sinalizar justamente o oposto: não ter esperança é algo mais cruel, grave e significativo do ponto de vista humano e político. A desesperança, embora não possua a mesma visibilidade concreta que a insatisfação, é um sinal de que devemos olhar até mesmo com maior preocupação para o atual cenário brasileiro de protestos e manifestações.

sábado, 5 de setembro de 2015

Cotas necessárias



Com a aprovação pelo Senado Federal da lei que reserva inicialmente por dez anos 20% das vagas para candidatos autodeclarados afrodescendentes, torna-se novamente necessário trazer o tema para debate. Para se compreender essas políticas afirmativas da sociedade contemporânea é importante que se faça uma breve retomada histórica.
Em meados do século XVI iniciou-se um processo de transferência de uma população estimada em dez milhões de pessoas, sequestradas de um lado do Atlântico e transportadas para a América para serem vendidos como mercadorias. 40% deste total desembarcou em solo brasileiro, sendo a base da mão de obra nacional por aproximadamente 350 anos. Ao final disso, no fim do século XIX, quando esse modelo econômico não mais era conveniente, algumas iniciativas políticas e sociais foram tomadas. Ao apagar as luzes do Império e na tentativa de tornar-se republicano, o Brasil, concede por lei, a liberdade a todos os brasileiros escravos. Depois de explorar por três séculos e meio, ao longo de gerações, sem nenhum tipo de remuneração ou retribuição social, a força de trabalho, a criatividade, e a cultura de uma população imensa, assina uma lei tardia, sem de fato inseri-los na cidadania brasileira, assinando-lhes uma carteira de trabalho.
Depois disso, ainda no início do século XX, os ex escravos e seus descendentes, levaram décadas para conquistar o direito frequentar escolas públicas ou mesmo para, mesmo tendo dinheiro, comprar propriedade e ser portador de escritura pública. Mesmo hoje, os dados demográficos confirmam: pessoas de pele escura tem probabilidade maior de evadir da escola, são maioria da população carcerária, ganham salários percentualmente menores e são minoria no ensino superior. Como sabemos, sendo afrodescendente é bem mais difícil de ascender socialmente e mesmo ascendendo, tem dificuldade de transitar na maioria das esferas de poder.
A partir deste cenário, o poder público propõe estas políticas de discriminação reversa, como uma tentativa de reparação social a este histórico de segregação, preconceito e exclusão política e social. Penso que não sejam nem corretas, nem erradas, mas necessárias. É um passo corajoso e imperioso que coube ao nosso tempo enfrentar. São a resposta política a uma chaga social. Devemos, portanto, nos envergonhar de precisar delas, mas devemos nos orgulhar de tê-las posto em prática.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Valorização profissional


 
Não se pode valorar profissões. Todas são importantes, sendo então impossível construir uma hierarquia. Porém, dentre aquelas que na contemporaneidade mais atribuímos importância, a de professor parece ocupar um lugar de destaque. E por uma razão primordial: é aquela que forma todos os outros profissionais. No entanto, a despeito de sua relevância, ocupa posição inversa quando verificamos a sua remuneração.
Em sua meta 17, Plano Nacional da Educação (PNE) menciona que se deve “valorizar os profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio aos demais profissionais com escolaridade equivalente”.  Apenas o cumprimento desta meta, já seria um passo significativo no caminho de uma verdadeira valorização da profissão docente.
Toda a sociedade, e principalmente a parcela que estudou ou estuda em escolas públicas, precisa tomar consciência da dimensão dos efeitos que esta baixa remuneração acarreta na qualidade do ensino que receberam, ou que seus filhos recebem. E aqui se busca ir além da questão salarial, na direção de um cenário muito mais amplo que perpassa as precárias condições de trabalho, as múltiplas jornadas e a inviabilidade de uma formação contínua e substancial.
Como se sabe, o trabalho dos professores transcende a sala de aula. Neste sentido, luta-se também pelo direito de se ter um terço da jornada de trabalho reservada para as produções pedagógicas extraclasse. Ler, estudar, participar de cursos, atender alunos e pais, preparar aulas, elaborar e corrigir provas e trabalhos, ou mesmo participar das incontáveis reuniões pedagógicas.
Por tudo isso, quando se trata de qualidade do ensino, deve-se pensar em ações concretas, imediatas e efetivas, pois assim são as demandas dos professores em suas vidas cotidianas, típicas de uma sociedade de consumo. Melhorar salários, regulamentar e ampliar as condições de trabalho, são ações prementes quando se busca verdadeiramente valorizar os profissionais da educação básica.